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“Há medidas para ampliar a segurança, mas não implantamos pois prejudicam o trânsito”

31/03/2009

Foi esse o tom do evento “Circulação e Transporte”, realizado na Associação Paulista do Ministério Público, no dia 31 de março de 2009.

Entre os debatedores, o secretario municipal de transportes Alexandre de Moraes – que usou sozinho quase todo o tempo destinado a todos os debatedores.

Felizmente, o secretário começou sua intervenção com uma ressalva de muita importância, ao menos para que suas iniciativas na secretaria fossem explicadas. Tratou-se de reconhecer seu desconhecimento técnico na área, e o pouco domínio sobre temas relacionados.

“Não são três especialistas na mesa, mas dois especialistas, e eu,” disse, pouco antes de afirmar que “quem mora em São Paulo não pode querer circular como no interior.”

E assim foi. Apresentou informações sobre as medidas adotadas pela CET para melhorar a FLUIDEZ dos carros, números sobre o investimento da prefeitura em obras viárias e em transportes coletivos (estes, irrisórios frente àqueles) e algumas ações sobre ações de controle de empreendimentos com significativo impacto no trânsito.

Entre as soluções apresentadas para os congestionamentos, foram citados o Rodoanel e 5 (cinco) anéis viários. Estes, ao custo de R$14,ooo.ooo.ooo,00 (quatorze BILHÕES de reais). E qual a representatividade disso? “Diminuição de 35% do tráfego de veículos NA REGIÃO CENTRAL.”

Na região central!

Moraes ressaltou o investimento da Prefeitura, de R$ 1.ooo.ooo.ooo,00 (um bilhão de reais) nas obras do METRO, que devem ser cedidos ao Governo do Estado, nos próximos quatro anos.

É evidente que o valor pouco representa quando comparado com aos gastos com obras viárias. Ainda mais quando se leva em conta a informação do próprio secretário: “cada quilometro do METRO custa R$250.000.000,00 (duzentos e cinqüenta milhões de reais).”

Traduzindo: ao final de quatro anos, a Prefeitura terá colaborado com 4 km do METRO, não é ótimo!?

NÃO!

Em meio a outras superficialidades, o secretário disparou frases como a do título, razão para lamentos de todos. Como se pode admitir que medidas de preservação da vida e segurança deixem de ser tomadas, por atrapalharem a fluidez? Qual o valor mais caro à Administração?!

Ficou claro que políticas que agradem aos motoristas de carros são que norteiam as ações da secretaria, pois mesmo representando menos de 30% dos deslocamentos na cidade, foram capazes de ocasionar o recuo da Prefeitura em medidas como implantação de faixas de motos em avenidas como a 23 de maio.

É o egoísmo dos usuários de transportes individuais privados – que se apropriam das ruas, como suas fossem – sendo aceito pelo governo.

Moraes demonstrou compreender a raiz do problema quando disse que precisamos desestimular o uso dos automóveis, concomitantemente à melhoria dos serviços de transporte coletivo. EM seguida demonstrou que não sabe como fazer isso.

Como exemplo de medidas de desestimulo ao uso do carro sugeriu: “semáforos inteligentes e garagens públicas verticais, totalmente automatizadas, em que trabalham apenas dois funcionários. Chicago e Tóquio fizeram ao custo de R$ 1 bilhão!”

Definitivamente, não assimilou a essência do problema.

Por falta de tempo, as perguntas enviadas não puderam ser respondidas pelo secretario, porém, foram feitas pessoalmente, na saída do evento:

Sobre as bicicletas, respondeu: “não podemos colocar uma faixa só para bicicletas pois, em São Paulo, temos ruas à esquerda e á direita e os ciclistas atrapalhariam o trânsito porque os carros iam quere virar, além de arranjar um problemão, com um monte de ciclistas atropelados.”

“Estamos estudando criar 66km de ciclovias, mas usadas para trabalho, não para lazer, pois há três tipos de ciclistas: os que querem passear, os que praticam esportes e os que vão trabalhar. É pra esse que nós estamos pensando, então não adianta querer uma ciclovia que ligue a zona leste à zona sul, pois seria para os esportistas.”

Sobre a comparação com a situação do transito em Bogotá, afirmou: “Bogotá não é bem assim. Não é tão bom, a própria população votou contra quem queria continuar o projeto do Transmilênio. Lá é um fundo de vale e o que fizeram foi tirar uma pista de estacionamento para fazer o corredor de ônibus. Muito mais simples”

Quando esclarecido por um dos ciclistas presentes que as pistas retiradas, em Bogotá, deram lugar a ciclovias, o secretário silenciou.

Por fim, atrasado para outro compromisso, Alexandre de Moraes concluiu: “estamos fazendo um estudo de toda a cidade, com mapeamento, para decidir onde é preciso estrutura para bicicletas, mas não dá para a Secretaria de Transportes cuidar dessa questão, também. Se a gente cuidar disso, os outros secretários ficam bravos,” brincou.

Ao final, a feliz sensação de que estive certo quando disse aos críticos do secretário, que não se tratava de um homem mal intencionado ou irresponsável. Pelo contrário: conferi que Alexandre de Moraes faz jus ao prestígio que ostenta no meio jurídico, pelo vasto conhecimento e histórico na área, e que as medidas tomadas na secretaria são fruto de péssima assessoria técnica.

Ou talvez, excesso da atuação de uma assessoria técnica demais.

Ainda bem que começou sua fala com uma ressalva!

Alexandre de Moraes faz ode ao motor

Alexandre de Moraes faz ode ao motor

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14 Comentários leave one →
  1. 31/03/2009 18:57

    Excelente post! Estive lá e sou testemunha de todas as palavras contidas neste texto.
    Gostaria de adicionar um comentário que ouvi na platéia…
    Quando o Prof. Hugo Antônio da Poli-USP mencionou sobre um provável benefício de se ter o shopping Itaquera, por fazer com que pessoas não tenham que trabalhar no shopping Iguatemi, por exemplo, escuto da cadeira de trás:
    “Mas quem trabalha no shopping Iguatemi jamais vai trabalhar no shopping Itaquera!”
    Enfim, comentário irrelevante para o tema da palestra, mas relevante para a psicologia social construída em São Paulo.

    Abraços,

    JP Amaral

  2. 31/03/2009 19:41

    Caramba, que loucura esse trecho ““Bogotá não é bem assim (…) o que fizeram foi tirar uma pista de estacionamento para fazer o corredor de ônibus. Muito mais simples”

    Exatamente o que é “tão simples” foi o que a prefeitura NÃO FEZ aqui em três casos: Brás Leme, Sumaré e Berrini.

  3. ecourbana permalink*
    31/03/2009 22:05

    Estive na palestra também!
    Diria que as falas dos professores da USP “salvaram” o debate e me reanimaram depois da palestra do Secretário.
    Não questiono a inteligência dele, de forma alguma, mas a lógica do discurso dele é puramente voltada para o AUTOMÓVEL! FLUIDEZ! E só! Ele não citou outros modais, outras soluções: MAIS VIAS PARA OS CARROS FLUÍREM E MAIS UNS KM DE METRÔ.
    Não muda!

    Os caminhões são os grandes vilões do trânsito, segundo o Secretário. SP pára por conta deles (Só deles, né?!)
    Ele comentou ainda que existiu a possibilidade de mais 1 dia de rodízio para os carros, mas logo disse que “não seria razoável mais restrições somente para os veículos”.
    E aí decidiram restringir os caminhões.

    Outra fala que me incomodou:
    “Os motoristas de carro se negaram a aceitar isso (isso = faixa de motos na 23 de maio) e não tem legitimidade o poder público impor algo que a sociedade não quer”
    Qual sociedade? A do sociedade do automóvel (???).

    Tem mais…
    “O transporte particular é um comodismo natural do ser humano”
    Ahhhh. Natural?

    “O viário não foi feito para estacionar!”
    Essa frase foi boa, pena que o complemento não favoreceu. A afirmação foi por água abaixo quando ele disse que as vagas de zona azul seriam substituídas, pelo mesmo preço, por vagas em garangens automáticas/verticalizadas.
    Mais obras…

    E assim foi…
    Um pouco desanimador, revoltante…
    Mas talvez uma ótima oportunidade para começarmos um diálogo com ele.

    Gabi Alem

  4. Márcio Campos permalink
    01/04/2009 15:08

    Bom, desse secretário aí não espero nada, a não ser que deixe o cargo. O sujeito é um pavão, assume que é desinformado na questão, então porque foi colocado aí? Política !

    Tenho nojo da forma como se preenche cargos públicos nesse país.

    Então é isso, ciclistas urbanos, cicloativistas, vamos às ruas fazer a revolução da mobilidade, a mudançã não tem que começar de cima para baixo, já quando acontece de baixo para cima até essas autoridades bitoladas são obrigadas a rever conceitos.

    Abraços a todos

    Márcio Campos

  5. ogum777 permalink
    01/04/2009 21:58

    humpf. conheço-o de outros carnavais, entenda-se, dos banco da faculdade. salvo a ocorrência de uma mudança de temperamento de proporções miraculosas, está na secretaria pra alavancar-se na política. como política pública pra carro dá voto na classe mé(r)dia, é isso que ele vai fazer. bicicleta? nem pensar!

  6. Leandro permalink
    02/04/2009 22:31

    É a deusa “Fluidez” continuando a ser cultuada, sabe-se lá até quando a miopia de um energúmeno como esse permitir.
    Detalhe também para a coisa dos “semáforos inteligentes”, que têm a propriedade de fagocitar carros, como todos nós sabemos.
    Bom o texto, o único senão para mim é meio que encampar a história do corredor de motos. Não defendo e não acho que melhoraria em nada a mobilidade urbana. Com o detalhe que seria algo que só existe no Brasil, o que, não sendo jabuticaba, sabemos que já deve levantar alguma desconfiança…

  7. Flausino, L permalink
    04/04/2009 14:38

    Já havia lido a respeito desse secretário, em outros espaços de discussão virtual, onde comentavam seu enorme conhecimento, que o fazia respeitado no meio jurídico e acadêmico.

    Sinceramente, não o vejo em notícias cotidianas, não questiono seu conhecimento jurídico, mas essas afirmações são no mínimo assutadoras, vindas de alguém que em sua formação, espera-se proteger o ser humano em sua interface com o coletivo, tornando a vida em sociedade possível.

    E revoltante alguém diminuir a importância para a vida, em nome da fluidez do tráfego de veículos motores indivduais, afirmando “Há medidas para aumentar a segurança, mas não implantamos pois prejudicam o trânsito”. O que é isso!?

    Estou impressionado a que dimensões chegou a inversão de valores na nossa sociedade em crise. Um jurista, que consciente ou não de seu conhecimento adquirido[?] em anos de ensino superior, e o funadmental direito dos seres humanos à vida? Onde que fica? No mínimo, acho que convenientemente o secretário esquece da vida, fato que para ele deve ser menos importante que seu carro possa deslocar-se por elefantes brancos com vidros bem escuros que o impeça de se escandalizar com a exclusão também alimentada por ele fora do ar condicionado de seu automóvel.

    []s,
    Flausino, Lucio

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