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Com internet, quem precisa de carro?

30/03/2013

Até o início deste século, quem não associava o carro à independência? Afinal, poderíamos ir aonde quiséssemos, quando desejássemos. Depender de carona ou transporte público era constrangedor.

Mas, para a nova geração, a posição do carro na escala do status está caindo. Caso essa tendência se confirmar, teremos consequências importantes no futuro da humanidade. Afinal, a estrutura atual das cidades foi moldada para permitir o deslocamento de carros e o modelo corrente de desenvolvimento é baseado na geração infinita de riqueza, em que a indústria automobilística é o principal sustentáculo, uma vez que é o ramo que mais emprega (lembrem-se que associada essa indústria há a siderurgia, mineração, autopeças, petróleo etc.).

Leia abaixo a reportagem do Los Angeles Times publicada no Estadão.

JERRY HIRSCH, LOS ANGELES TIMES – O Estado de S.Paulo

Se precisasse escolher entre um novo Toyota Corolla ou o iPhone mais recente, Allison Katz, de Irvine, Califórnia, de 16 anos, diz que seria fácil. Ficaria com o telefone. O serviço de mensagens de texto dirige sua vida. Ela não tem carteira de motorista e nem tem pressa de obter uma. “Em geral, fico perto de casa, salvo para o treino de futebol, e então quem dirige é o papai ou a mamãe”, disse Allison.

 

Isto basta para um executivo da indústria automotiva não dormir à noite. Há trinta anos, metade dos adolescentes de 16 anos tinha carteira de habilitação, um passaporte para a independência. Até 2010, este número caiu para 28%, segundo pesquisa da Universidade de Michigan.

Esta mudança cultural é em grande parte o resultado da tecnologia que faz com que os adolescentes fiquem conectados entre si, sem nunca entrar num carro. Tudo o que eles adoram – música, filmes, roupas, livros – está ao alcance clicando o mouse, ou tocando a tela do smartphone.

Antes, dirigir permitia que os adolescentes “fossem aonde quisessem, fizessem o que quisessem e, em certo sentido, fossem quem quisessem ser”, disse Lindsey Kirchoff, da empresa HubSpot, consultora de marketing sobre as tendências do milênio. “A internet tornou desnecessária a liberdade proporcionada por uma carteira de habilitação.”

Por outro lado, obtê-la também ficou mais difícil. Para começar, os adolescentes de hoje sofrem uma pressão maior em termos de tempo do que seus pais sofreram. A forte concorrência para ingressar numa faculdade implica em cursos preparatórios, cursinhos, esportes e outras atividades destinadas a valorizar os currículos escolares. Ao mesmo tempo, as aulas de direção, antes um dos cursos mais concorridos no secundário nos EUA, caíram vítimas dos cortes orçamentários e este tipo de aprendizado tornou-se menos acessível para os adolescentes.

A Califórnia tem uma legislação particularmente severa. O Estado exige que os jovens até 18 anos passem 50 horas atrás da direção com um adulto com mais de 25 anos antes de fazer o exame de direção. Mesmo aprovados, enfrentam sérias restrições que complicam consideravelmente sua vida social. Os motoristas abaixo de 18 anos não podem levar seus amigos para cima e para baixo, a não ser que estejam acompanhados por um pai ou outra pessoa responsável. Não podem dirigir entre as 11 e as 17 horas.

A redução do interesse desta geração pela direção terá graves consequências a longo prazo para as vendas de veículos e para o marketing. Antes de vender seus produtos aos jovens, os fabricantes precisam convencê-los de que precisam de um carro.

Os motoristas de 15 a 20 anos foram responsáveis por 3,4% das compras de automóveis novos em 1985, ou cerca de 500 mil veículos, segundo a CNW Research, empresa de pesquisa do mercado automotivo. O número caiu para 2% no ano passado, ou apenas 300 mil veículos.

As implicações para a indústria são muito mais graves do que algumas vendas perdidas ou adiadas no caso dos jovens motoristas. Muitos dos adolescentes de hoje não têm o mesmo apego emocional ao carro dos seus pais, que aspiravam aos carros de luxo ou de grande desempenho como símbolos de status.

Muitos adolescentes que não têm habilitação admitem que um dia aprenderão a dirigir. Mas não precisarão estacionar. Para comprar o seu lanche irão a pé até a lanchonete, e não mais o esperarão dentro do carro. Eles não farão suas primeiras experiências de vida num carro e nem acabarão se apaixonando pela direção. O status agora é conferido pelos gigabits, e não mais pelos cavalos-vapor, pelo iPad mais recente com tela Retina, e não por uma BMW.

Esta geração provavelmente comprará menos carros durante toda a sua vida do que seus pais, admite Jack Hollis, diretor de marketing da Toyota nos EUA, em razão de interesses concorrentes, da maior durabilidade dos automóveis e do pragmatismo ditado pela recessão.

Cerca de três quartos dos jovens deste milênio, dos 18 aos 24 anos, preferem comprar online do que nas lojas, segundo uma pesquisa divulgada em dezembro pela Zipcar, a companhia que aluga carros por hora. Se tiverem de escolher entre perder seu telefone, computador ou carro, 65% deles preferem perder o carro. “Esta é a geração Xbox”, diz Scott Griffith, ex-presidente da Zipcar. “Estes jovens administram sua vida social tão facilmente na rodovia da informação quanto nós numa rodovia asfaltada.”

Alguns jovens dispensam a direção porque isto interfere em sua possibilidade de enviar mensagens de texto, segundo Michael Sivak, professor de pesquisa no Instituto de Pesquisa dos Transportes da Universidade de Michigan.

Christian Kerr, que estuda na Escola Politécnica Secundária de Long Beach, Califórnia, e não dirige, passa o tempo com os amigos na escola e no treino de atletismo. “Nos fins de semana, ando de bicicleta ou utilizo um carro em grupo com meus colegas. Ter uma carteira de habilitação não é uma prioridade.”

Allison, que cursa o ensino secundário em Irvin, assistiu recentemente ao filme Os Vingadores num televisor em 3D Samsung de 52 polegadas, em sua casa, em vez de ir ao cinema. Nos programas com os amigos, eles vão ao shopping center local para tomar lanche.

Preocupação. “Os fabricantes estão muito preocupados”, comentou Scott Griffith. Parte do problema da indústria automotiva se resume as um simples cálculo matemático. “Um smartphone com a respectiva fatura pode chegar a US$ 100 por mês. O que equivale a apenas uma parte da prestação de um carro”, disse Cristi Landy, diretor de marketing de carros compactos da Chevrolet.

A indústria ajudaria a si mesma se oferecesse uma melhor integração da tecnologia em seus carros, diz Hollis, da Toyota. “A indústria automotiva não procurou atualizar-se, incorporando tecnologia e design, com a mesma velocidade do resto da sociedade”, disse. “Seria difícil afirmar que uma fabricante qualquer superou as concorrentes em matéria de inovação.”

Entretanto, os carros gostosos de dirigir, de estilo dinâmico, sempre atraem os jovens compradores, disse Hollis. A Toyota tinha isto em mente quando redesenhou seu sedã Camry, disse. Agora, 12% dos compradores do Camry têm menos de 29 anos, em comparação a 7% do modelo anterior.

De um jeito ou de outro, todos os fabricantes estão procurando se ajustar aos novos tempos. Tudo isto ajudará. Mas, segundo Griffith, “a indústria precisa, na verdade, é de um iPhone sobre rodas”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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One Comment leave one →
  1. 01/08/2013 12:46

    Nossa interesante esse enfoque, realmente muitas gestoes se podem realizar por internet e ter um carro na garagem mesmo que parado custa caro portanto felizmente para nosso bolso e para a qualidade do ar o carro pode ser dispensado em muitos casos!!

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