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O desespero de Jirau

22/11/2010

Minha historia: Rubin Luiz Benarroque, 68

Usina hidrelétrica vai inundar “o mundo” de seu Rubin, comerciante que saiu da sua casa em Mutum depois de 55 anos por causa da obra de infraestrutura do PAC

Resumo
Mutum-Paraná, a 160 km de Porto Velho (RO), onde viviam cerca de 300 famílias, vai ser inundado com a construção da hidrelétrica de Jirau. O comerciante Rubin Luiz Benarroque, 68, era um dos moradores mais antigos do local e tinha um hotel, que ele está demolindo, próximo ao rio Madeira. Os quatro filhos de seu Rubin nasceram ali. Ele reclama do valor da indenização que recebeu para deixar o local e diz que não tem perspectivas no lugar para onde foi levado.

(…)Depoimento a Hudson Correa, Folha de S.Paulo, 20 de novembro de 2010

“Eles da hidrelétrica passaram explicando como ia ser, mas a questão é que a gente nunca acreditou que aquele mundo de casas iria acabar. A gente é acostumado dentro do mato. Quem ia dizer que iria inundar?

Mas, todo dia, tinha [funcionário de empresas responsáveis pela usina de Jirau] fazendo pergunta de um jeito ou de outro. Assim ia [2009]. Sempre minha casa servia de apoio. Cada dia, ficava mais preocupado.

Sabe havia quantos anos eu morava em Mutum? Cinquenta e cinco. Meu filho e minhas três filhas nasceram lá. Eu tinha comércio, tinha restaurante e dormitório com 20 quartos.

Ao total, tinha cinco casas que alugava. Em que resultou? O inquilino ganhou uma casa nova e eu não.

Muitos deles ficaram até devendo o aluguel. Vou falar a verdade: não fui correr atrás porque deixei de mão, fiquei logo injuriado.

Minha casa, eu queria que você visse os arvoredos, todo mundo frequentava. Hoje estou esquecido aqui [em Nova Mutum, a 60 km da antiga, construída para desalojados]. Não tenho para onde olhar. Estou velho. Não tenho mais do que correr atrás.

Eu devia ter recebido mais [em indenização por ter sido removido de Mutum]. Acho que recebi uns 80% a menos. Sou um dos veteranos, um dos pioneiros. Sofri muito com malária.

Ali tive muita história para contar. Meu pai trabalhava com seringal em Ji-Paraná [370 km de Porto Velho]. Daí surgiu o trem e a gente veio para Mutum mexer com a borracha no [rio] Madeira.

Foi o tempo que nós íamos engrossando o cangote. Estava chegando aos 20 anos.

ONÇA E CORPOS NO RIO
Nessa época, um seringueiro foi cortar [árvore no seringal] e uma onça o retalhou todinho. Outro companheiro escutou os gritos. Quando chegou [ao local], a onça não tinha matado, mas ele estava todo retalhado.
De onde aconteceu isso até chegar a Mutum era só transporte a remo. Nós trouxemos [o seringueiro] na canoa. De lá [da margem do rio], carregamos o homem nas costas até a estrada de ferro. Aí ele recebeu os primeiros socorros de um enfermeiro. No outro o dia, o ônibus passaria [às] oito da manhã. [O seringueiro sobreviveu].
Era só mato. Um dia [há cerca de 30 anos] estava uma cheia violenta e fui trazer a mulher [à cidade] para ganhar neném. Quando voltei, não tinha transporte.
De certa altura, na região que se chama Palmeiral, até chegar ao Mutum, tive que ir a pé. Em vários pontos passei nadando. Eu gastei um dia [na viagem] porque saí cedinho. Eram uns 17 quilômetros na mata.
Medo dava demais, só Deus para ajudar.
Outra coisa que conto: nós chegamos a gastar sete dias para chegar de Porto Velho ao Mutum [160 km de distância] com um caminhão. O problema eram os atoleiros.
Quando veio a rodovia, o negócio mudou e cada um foi procurando seu canto.
Companheiro, quando chegou o garimpo, ainda tinha o comércio dentro da vila e fechava quando os garimpeiros andavam doidos.
Todo santo dia, toda noite, matavam gente à bala.
Quando liberaram mulher e bebida [na área de garimpo], em 1980, aí a mortalidade aumentou 100%. Teve noite de chegarem dez cadáveres na delegacia.
No começo, quando descia um cadáver boiando no rio, o cara agarrava e avisava a polícia. Mas aí não prestou porque a polícia, em vez de agradecer, queria que o cara dissesse quem matou. Aí ninguém mais parou nada. Tinha nego morto em cima das pedras em todo canto.
Graças ao meu bom Deus, eu sempre tive uma boa comunicação com esse povo.
Em 1974, casei e botei o comércio de bebida e alimentos. Passei o comércio para a beira da estrada [rodovia].
Eu pescava da janela do meu quarto. Peguei um de mais de cem quilos. A casa era construída em cima da água. Fiz pilares de cimento.
Daí você acredita que até oito dias atrás eu estava lá em Mutum?
Vou sentir falta demais. Ainda não me acostumei”.

OUTRO LADO
A Energia Sustentável do Brasil, responsável pela construção da hidrelétrica de Jirau, afirma que pagou R$ 475 mil de indenização a Rubin, valor, segundo a empresa, acima do praticado no mercado.

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One Comment leave one →
  1. 22/11/2010 8:37

    Olá!

    Muito interessante este texto, que trata a questão da construção de hidrelétricas sob um ponto de vista mais humano. Não há como ignorar que muitas pessoas são afetadas negativamente por essas obras – e em geral são as mais humildes.

    Esses dias também li um texto bacana sobre a relação da comunidade com construções em seus bairros, só que é um caso positivo. Trata-se do Projeto Urbano Córrego do Antonico, localizado em Paraisópolis, segunda maior favela da cidade de São Paulo (são 60 mil habitantes). Lá eles transformaram a relação da população com o córrego, que antes só trazia problemas, como inundações e mal cheiro. Acho que vale a pena ler esta matéria: http://migre.me/2a49B

    Abs.

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