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Promotoria vai investigar monotrilho do Morumbi

11/11/2010

Inquérito é aberto após representação de ONG e de condomínio do bairro. Para síndico, o governo tenta empurrar “projeto pronto” sem discuti-lo; Metrô defende obra e diz que fez a melhor opção

José Benedito da Silva e Juliana Granjeia, Folha de S.Paulo, 7 de outubro de 2010

O Ministério Público de SP abriu inquérito para apurar se há “irregularidades e danos à ordem urbanística” na implantação da linha 17-ouro do metrô, que ligará o aeroporto de Congonhas aos bairros do Morumbi e Jabaquara.

A investigação foi aberta ontem, após representação da ONG Movimento Defenda São Paulo e do Palm Springs, um condomínio de casas de alto padrão do Morumbi.

O promotor Raul de Godoy Filho pediu informações à SPTrans, à Casa Civil do governo de SP e à prefeitura.

O órgão quer detalhes sobre a escolha do monotrilho -trem que trafega sobre um elevado-, as intervenções necessárias, os danos ambientais e a estimativa de imóveis desapropriados.

O Estudo de Impacto Ambiental da obra prevê desapropriar 132 mil m2, incluindo lojas, imóveis de alto padrão e dois empreendimentos ainda na planta, como revelou ontem a Folha.

A iniciativa representa uma escalada na ofensiva articulada por entidades do Morumbi contra o projeto.
Segundo Reynaldo Abujamra, síndico do Palm Springs, entidades da região também irão à Justiça. “A indignação é muito grande. O bairro é residencial. Não deixam arrancar uma árvore e vão empurrar essa obra?”

A maior queixa é que o governo tem um “projeto pronto” e tenta aprová-lo em audiências em locais como a favela de Paraisópolis e o Jabaquara, onde a resistência é menor. Não há audiência prevista para o Morumbi.

O secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, que comanda as audiências, é acusado de estar “aparentemente comprometido com as empreiteiras”. Ele não quis comentar.

DEGRADAÇÃO

Além das críticas à falta de discussão, a representação questiona outros aspectos do projeto como as desapropriações e a degradação da paisagem com a construção do elevado de 15 metros de altura, com colunas de sustentação erguidas a cada 30 metros -a extensão é de 20 km.

Segundo a representação, o projeto “ocasionará impactos visuais, ambientais e sonoros em uma região de grande concentração residencial e de escolas”.

Invocam com frequência o elevado Costa e Silva, o Minhocão, no centro, “erro urbanístico que ocasionou forte degradação visual, sonora, ausência de privacidade, desvalorização imobiliária e aumento da criminalidade”.

OBRA IMPORTANTE

O Metrô defende a obra, diz que o monotrilho causa baixo impacto ambiental e menos desapropriações. Afirma, ainda, que é importante para o sistema de transporte público a integração do aeroporto de Congonhas à rede metroferroviária e do Morumbi ao restante da malha por meio de conexões com as linhas 1-azul e 4-amarela.

A companhia disse, ainda, que “tomará as medidas cabíveis” para “garantir o interesse público” caso o projeto seja questionado na Justiça.

OPINIÃO

Moradores devem cobrar e não apenas recusar ampliação do transporte público

RAUL JUSTE LORES EDITOR DE MERCADO

Moradores de Higienópolis admitiram à Folha que a abertura de uma estação de metrô na avenida Angélica traria “gente diferenciada” ao bairro. Não é difícil imaginar que alguns vizinhos do Morumbi compartilhem esse medo e prefiram o isolamento garantido com a inexistência de transporte público de massa por ali.

Mas à parte o gosto exacerbado dos paulistanos por levantar muros, erguer fortalezas e se refugiar em ambientes distantes do Brasil real, o poder público não fez a sua parte em desmentir que a chegada do transporte de massas não degrade a paisagem urbana.

Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, na Colômbia, e grande especialista em transporte coletivo, diz que não basta criar corredores de ônibus bem asfaltados e servidos por diversas linhas.

Abrigos confortáveis, boa iluminação, calçamento, limpeza e paisagismo que circundam estações de metrô ou pontos de ônibus precisam mostrar o status que o transporte público tem em uma determinada cidade.

Se no entorno do ponto de ônibus, a calçada está esburacada, há sujeira e a escuridão afugenta pessoas à noite, é normal que moradores não queiram a chegada do transporte de massa.

A instalação de linhas de monotrilho ou de corredores de ônibus precisa vitaminar uma área, não destruí-la.

Quando as grades da Nove de Julho foram retiradas, a avenida ficou menos tétrica, quase bonita. Quando o corredor da Rebouças fez pontos muito modestos, que acumulam diversos ônibus sem dar vazão a desembarques, a imagem do engarrafamento e da bagunça vira um desastre de relações públicas.

Em Istambul, monotrilhos foram instalados no nível da rua, como os “trams”” das cidades alemãs e suíças. Mesmo em uma cidade de 16 milhões de habitantes na Turquia, país emergente como o Brasil, houve um cuidado com os abrigos feitos de vidro, com os bancos caprichados-em formato de livro- e com a iluminação.

Restou menos espaço para os carros porque a ideia ali era tentar convencer na marra os motoristas a deixarem mais seus carros em casa e usarem o transporte público.

Se os monotrilhos do Morumbi, de fato, se parecerem com um Minhocão, o Godzilla do centro de São Paulo, os moradores deveriam protestar, pedindo melhorias no projeto, detalhamento dos materiais, condições e impacto dos trilhos na paisagem urbana. Se forem como os antigos bondes, ótimo.

Mas se os moradores simplesmente recusarem qualquer ampliação do transporte público, que beneficiará diretamente os milhares de prestadores de serviço que precisam trabalhar na região do Morumbi, vai ser difícil acreditar que o problema deles não seja a gente diferenciada que precisa circular por São Paulo.

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