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O perde-ganha na área do clima

01/08/2010

Somos o quarto maior emissor do planeta, com 1,9 bilhão de toneladas de carbono equivalentes em 2008 (mais de 10 toneladas por habitante/ano), das quais 58% em consequência de desmatamentos, mudanças no uso do solo e queimadas

Washington Novaes, O Estado de S. Paulo, 30 de julho de 2010

Mesmo com a Serra Gaúcha ainda traumatizada pelo desastre climático de poucos dias atrás e o Nordeste brasileiro sem meios para enfrentar o drama de Alagoas e Pernambuco, é surpreendente a quase nenhuma importância que a comunicação brasileira deu às terríveis dimensões da mais recente tragédia das enchentes na China: 117 milhões de pessoas atingidas em 27 províncias, 8 milhões de pessoas desalojadas, 645 mil casas derrubadas, mais de 700 mortos e perto de 350 desaparecidos, 7 milhões de hectares de cultivos comprometidos, perdas de US$ 37 bilhões.

A mesma perplexidade advém da leitura do noticiário sobre a dificuldade de, no plano mundial, se chegar a um acordo para reduzir as emissões de gases poluentes que contribuem para mudanças climáticas. Na semana passada, o governo norte-americano, por exemplo, desistiu de tentar aprovar agora no Senado sua proposta de legislação que permitiria estabelecer metas nessa área. Tão complicada está a negociação no plano global que a Convenção do Clima já está propondo um plano de emergência que permita, pelo menos a 143 países signatários, prorrogar a vigência do Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. Ao mesmo tempo, um grupo de 21 consultores da ONU sugere criar uma taxa para as emissões de aviões e navios, setor em que mais cresce o problema (5% ao ano).

E ainda que se consiga avançar, será preciso que a prorrogação seja homologada pelos Parlamentos dos países (para que a homologação permitisse a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto foram necessários oito anos). Mas se essa prorrogação não ocorrer, ficarão ameaçados dispositivos como os do Mecanismo do Desenvolvimento Limpo (MDL), que permitem a uma empresa poluidora num país financiar em outro país projetos que reduzam emissões – e abater a redução no seu balanço nacional; ou o que permite a um país que tenha reduzido suas emissões além da cota que lhe cabe (caso da Rússia e outras nações da antiga área socialista, que sofreram um processo de desindustrialização) negociar uma cota com outro país e ser remunerado.

Entra-se aí no terreno financeiro, que envolve altas importâncias. No ano passado, as incertezas quanto ao protocolo levaram o mercado de certificados de carbono a baixar ainda mais o valor médio de cada um para pouco mais de US$ 15 (já esteve em US$ 80). E mesmo com uma queda de 38% no valor total dos negócios nesse âmbito, ele ainda esteve em US$ 20,6 bilhões. Não é o único ângulo que assusta o mercado financeiro: no recente Fórum Global da Mídia em Bonn, uma das maiores resseguradoras do mundo, a Munich Re, lembrou que de 1980 a 2009 os desastres climáticos no mundo passaram de uma média de 400 por ano para mais de 800 – enquanto os chamados desastres naturais (tsunamis, terremotos, erupções vulcânicas) se mantiveram abaixo de 100 por ano -, relatou Cláudio Ângelo na Folha de S.Paulo (30/6). E com isso o panorama está muito difícil para o setor de seguros.

A complexidade não está apenas aí. Ao mesmo tempo que as negociações continuam empacadas, é inegável certa aflição dos países industrializados em relação à corrida por tecnologias de energias “limpas” e renováveis. Quem perder a corrida aí pode ver comprometido seu lugar na economia mundial. Tanto que os ministros de Energia da Grã-Bretanha, do Meio Ambiente da Alemanha e da Ecologia da França assinaram conjuntamente artigo no jornal Financial Times advertindo que a União Europeia (UE) precisa ampliar suas metas de redução de emissões de gases se quiser competir com a China, o Japão e os EUA nessa corrida. Até aqui a UE se dispõe a reduzir 20% (calculados sobre as emissões de 1990) até 2020 – e 30% se os demais países aceitarem essa meta maior. Está implícito no raciocínio que basicamente se acredita que tecnologias serão capazes de resolver grande parte do problema – e não a redução pura e simples de emissões, que poderia custar mais caro.

Por tudo isso, acordos bilaterais que antes pareceriam inviáveis também se concretizam. EUA e Rússia, por exemplo, assinaram tratado que deverá permitir um avanço de ambos os países no campo das energias “limpas”. Ele inclui troca de informações que levem a reduzir as emissões de carbono e perdas de energia nos sistemas elétricos. A Rússia acha que poderá ganhar US$ 80 bilhões por ano com o acordo (The Boston Globe, 22/7). Já a China vai implantar sistema doméstico de comércio de emissões, com a intenção de reduzir a intensidade de energia por unidade de produto em 40% a 45% até 2020. E mesmo hoje o país contesta a Agência Internacional de Energia, que o aponta como o maior consumidor de energia no mundo ? 2,252 bilhões de toneladas de petróleo equivalentes em 2009 (com carvão – 70% do total -, gás, energia nuclear e hidrelétrica), ante 2,170 bilhões dos EUA.

E o Brasil? Afinal, somos o quarto maior emissor do planeta, com 1,9 bilhão de toneladas de carbono equivalentes em 2008 (mais de 10 toneladas por habitante/ano), das quais 58% em consequência de desmatamentos, mudanças no uso do solo e queimadas. E pretendemos, com nossas “metas voluntárias”, reduzir em 40% o que seriam as emissões previstas para 2020 (2,7 bilhões de toneladas). Mas se as emissões de carbono per capita no Estado de São Paulo caíram entre 1997 e 2007, a intensidade energética por unidade de produto industrial aumentou 26% (Ricardo Abramovay e Danilo Igliori no Valor Econômico de 2/6).

É bom cuidar. As questões da competição em função de tecnologias, mudanças climáticas e setores afins estão tão agudas que já invadiram até o domínio das histórias em quadrinhos. Na edição de 22 de junho deste jornal, a tira de Frank e Ernest mostra-os ao lado de uma placa de sua empresa (Cia. Petrolífera F & E), com um advertindo o outro: “Sinto dizer isso, mas nossa empresa está indo para o buraco.”

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