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Defasado, relatório aponta aumento de emissão no país

27/07/2009

Paulo Whitaker

Paulo Whitaker

Conta oficial da produção de carbono no Brasil ainda não exibirá queda recente. Governo corre para finalizar antes de conferência do clima um levantamento que revele como a redução do desmate diminuiu o CO2

CLAUDIO ANGELO, Folha de S.Paulo, 25 de julho de 2009

O Brasil entrega neste ano à Convenção do Clima das Nações Unidas seu inventário de gases de efeito estufa, com quase uma década de defasagem e uma má notícia: as emissões por desmatamento da Amazônia a serem relatadas são as maiores da história -maiores, inclusive, que as atuais.

Apesar de o desmatamento ter caído 60% entre 2005 e 2008, o inventário se referirá às emissões de 2002 em relação às de 1994. Naquele período, as derrubadas na Amazônia tiveram um crescimento de 40%.

Como as emissões pela queima de combustíveis fósseis também cresceram entre 1995 e 2002, o novo inventário criará uma situação esdrúxula: mostrará um Brasil muito mais poluidor do que o do primeiro inventário, de 1994, mas também provavelmente mais poluidor do que o Brasil de hoje.

Por isso, o MMA (Ministério do Meio Ambiente) quer fechar em breve um conjunto de dados gerais de emissão do país. Segundo a secretária nacional de Mudanças Climáticas, Suzana Kahn Ribeiro, mesmo que eles não tenham a precisão do inventário “oficial”, esses dados dariam uma ideia mais atual de quanto o Brasil emite.

O inventário é uma espécie de prestação de contas que os países precisam entregar de tempos em tempos à Convenção do Clima. Ele traz os dados oficiais de emissão por setor da economia em cada nação, e com base nesses dados são, em tese, elaboradas as políticas de controle de emissões.

O próximo inventário será apresentado na conferência do clima de Copenhague, em dezembro. O encontro deve produzir um acordo global para combater o efeito estufa que substitua e amplie o Protocolo de Kyoto (que expira em 2012).

“Vamos ficar mal na fita”, disse à Folha Thelma Krug, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que coordena o capítulo de desmatamento do inventário.

De 1995 a 2002, o desmatamento médio anual na Amazônia -principal fonte de emissões do Brasil- foi de 19.109 km2 ao ano, contra 15.308 km2 ao ano entre 1988 e 1994.

Isso representa uma emissão líquida anual de 535 milhões de toneladas de CO2. O dado mais favorável ao Brasil é o dos últimos quatro anos (2005 a 2008), quando a derrubada média anual foi de 14.113 km2.

Uma fonte ouvida pela Folha diz que o governo espera ver a cifra de 2009 ainda mais baixa: em torno de 9.000 km2.
Segundo Ribeiro, a defasagem é normal. “Os países têm um prazo longo mesmo pela convenção, nisso o Brasil está OK.” O país, porém, está atrasado na produção de inventários até mesmo em relação a outras nações emergentes. O México está elaborando o seu quarto documento do gênero.

“O cenário ideal seria ter estimativas anuais de emissão e inventários completos bienais ou trienais”, diz Tasso Azevedo, consultor do MMA.

Nova metodologia permitirá atualização anual, diz cientista

Uma possível boa notícia sobre o novo inventário de emissões do Brasil talvez seja que o atraso é o preço da qualidade.

Segundo Thelma Krug, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a demora do inventário se deve, entre outras coisas, ao fato de que o país resolveu adotar a mesma metodologia recomendada pelo IPCC (o painel do clima das Nações Unidas, do qual ela é uma das vice-presidentes) para os países industrializados.

O primeiro inventário nacional usava uma série de aproximações e suposições para dados que não existiam. Ninguém sabe ainda, por exemplo, qual é a taxa de emissão anual do cerrado, bioma que, acredita-se, emita o equivalente a metade do que emite a Amazônia.

O novo, diz Krug, já sai na frente porque partirá dos mapas de uso do solo elaborados pelo programa Probio, do Ministério do Meio Ambiente.

Isso permitirá dividir o país em milhares de células, cada uma com várias “camadas” de informação: o teor de carbono do solo, a vegetação original e o uso da terra. Este, por sua vez, será subdividido em seis categorias: floresta, agricultura, campo (inclui cerrado), área urbana, área alagada e outros.

Cada célula será inserida numa “matriz de conversão”, que mostra cada categoria de uso da terra em 1994 e como ela variou em 2002. “Mesmo que uma célula seja fragmentada ao longo dos anos eu vou poder contar a história dela”, diz Krug.

Depois de pronta a matriz, o Brasil poderá gerar inventários anuais de emissão, se quiser. “Outros países em desenvolvimento vão levar dez anos para implementar essa matriz”, afirma a pesquisadora.

De resto, afirma Krug, não deve haver “desespero de gerar inventários amiúde quando os problemas e as soluções não mudam tão amiúde”.

O uso da terra, em 1994, em 2002 e em 2008, continua sendo responsável por cerca de 70% das emissões do Brasil. “A proporção pode variar, mas é pouco”, diz. “Dizer que eu preciso de um inventário para tomar providências é desculpa. Ninguém precisa de inventário para saber que tem de reduzir o desmatamento.”

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