Skip to content

Cidade cresce onde trânsito é o maior problema

26/07/2009

plano diretor DSPTráfego incomoda moradores de 9 dos 10 distritos que mais atraem mercado imobiliário. Kassab diz que tenta resolver problema com investimentos no transporte público e a criação de secretaria “focada no crescimento ordenado”

EVANDRO SPINELLI e MARIANA BARROS, Folha de S.Paulo, 26 de julho de 2009

Nove dos dez distritos que mais atraíram a atenção do mercado imobiliário desde a aprovação do Plano Diretor têm o trânsito como a maior reclamação dos moradores.

Vila Leopoldina, Vila Andrade, Vila Formosa, Mooca, Perdizes, Vila Mariana, Água Rasa, Tatuapé, Ipiranga e Campo Grande foram, nessa ordem, os distritos que mais se verticalizaram nos últimos cinco anos.

Desses, só na Vila Formosa o trânsito não é a maior reclamação, segundo a pesquisa DNA Paulistano, feita no ano passado pelo Datafolha.

O Plano Diretor e suas leis complementares foram aprovados entre 2002 e 2004 para garantir o crescimento ordenado da cidade. Um dos instrumentos usados é o estoque de potencial construtivo. Na prática, ele dá o limite de metros quadrados que pode ser construídos em cada distrito.

A ideia era permitir o maior adensamento nos locais que já tinham infraestrutura -distritos com pouco transporte público teriam pouco estoque.

O que aconteceu, no entanto, foi um aumento do tráfego em locais que se julgava bem estruturados -mas não estavam.

Questionado, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) disse que a cidade cresceu desordenadamente. “Cresceu onde não tem transporte público, onde não tem metrô, onde não tem infraestrutura. Essas foram as principais razões do crescimento desordenado da cidade de SP que levaram a esse caos.”

Kassab diz que procura resolver o problema. “Investimos no transporte público e criamos uma secretaria para ter foco específico no crescimento ordenado da cidade.”

O Plano Diretor, em revisão na Câmara Municipal, prevê o adensamento ao longo das linhas de trem e metrô.

Os distritos onde se previa maior adensamento eram, pela ordem, Tatuapé, Brás, Perdizes, Pari e Saúde. O maior adensamento, porém, foi na Vila Leopoldina, Vila Andrade e Vila Formosa. E com estoques baixos, Morumbi, Vila Guilherme e Jaguaré já não podem ter novos empreendimentos.

Para João Crestana, presidente do Secovi (sindicato da habitação), o cálculo dos estoques foi mal feito: levou-se em conta o desempenho do mercado imobiliário na década de 90 -um dos piores da história.

O resultado, diz Crestana, é que os lançamentos imobiliários migraram para a região metropolitana. Segundo ele, a capital concentrava, no início da década, 80% dos empreendimentos. Hoje, a divisão é quase meio a meio. “São Paulo rejeitou o adensamento.”

Os cálculos estão sendo refeitos: “Temos trabalhos que refletirão as várias infraestruturas -viária, transportes, ambiental”, disse o secretário de Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalem. Ele ressalta que esse cálculo não tem a função de induzir o crescimento, mas admite que estoques baixos podem inviabilizar o desenvolvimento de certas áreas.

Prefeitura recalcula potencial de obras e revisa Plano Diretor

A Prefeitura de São Paulo está recalculando os estoques de potencial construtivo de todos os distritos da cidade.

Com isso, distritos esgotados pela legislação atual podem voltar a receber construções -casos do Morumbi e do Cambuci. Outros podem ter redução do “espaço livre” para novos empreendimentos – é o caso do Tatuapé.

De acordo com o secretário de Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalem, a revisão levará em conta a infraestrutura viária, a oferta de transporte público e a questão ambiental.

Bucalem, no entanto, aposta mais no que ele chama de “intervenção planejada”. Por isso, a prefeitura estuda implantar duas novas operações urbanas -na Mooca/Ipiranga e na Vila Leopoldina/Jaguaré.

A revisão dos estoques de potencial construtivo faz parte do processo de revisão do Plano Diretor, em tramitação na Câmara Municipal (veja quadro com audiências públicas).

A rigor, o primeiro passo seria aprovar o projeto discutido pelos vereadores, que trata de conceitos urbanísticos e diretrizes gerais do desenvolvimento da cidade. Em seguida viria a revisão da Lei de Zoneamento, que estabelece as regras gerais para a ocupação. Só depois seriam revistos os planos regionais, elaborados para cada uma das 31 subprefeituras.

Esse processo, porém, pode ser muito longo, e a prefeitura sofre pressão para liberar novas construções em áreas esgotadas de acordo com os estoques em vigor. Por outro lado, se não houver restrição a novos empreendimentos em áreas de grande fluxo de trânsito e pouco transporte, pode haver um colapso urbano nesses locais.

A Secretaria de Desenvolvimento Urbano deve concluir a revisão dos estoques ainda neste ano. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) disse que pode fazer a mudança sem necessidade de encaminhar para a Câmara.

“Esses estudos não estão concluídos ainda. A conclusão, assim que acontecer, será trazida ao nosso gabinete para que a gente possa cr iar um grupo intersecretarial, analisá-lo e, depois, num segundo momento, encaminhar para a Câmara, se for o caso. Podem até, esses estudos, indicarem a não necessidade de encaminhamento para a Câmara”, afirmou o prefeito.

Urbanista é a favor do pedágio urbano

Para Candido Malta, pedágio estimula o transporte público

O urbanista Candido Malta fez um estudo de infraestrutura de transporte dos distritos de São Paulo para subsidiar a revisão dos estoques de potencial construtivo em estudo na Secretaria de Desenvolvimento Urbano. Para ele, é preciso incentivar o uso do transporte coletivo, permitindo o adensamento de partes da cidade, e criar o pedágio urbano, restringindo uso de carros.

FOLHA – Dos dez distritos que mais se adensaram, em nove o maior problema é trânsito.

CANDIDO MALTA – Claro. O pressuposto de quando você adensa é que haverá a preferência pelo transporte coletivo. Se continua pelo automóvel, o resultado é congestionamento maior.

FOLHA – E por que não houve preferência pelo transporte coletivo?

MALTA – A oferta é insuficiente, tem de ser ampliada. Por outro lado, sabemos que a preferência pelo carro é maciça numa certa camada de poder aquisitivo alto. Essa combinação resulta no prédio alto produzindo congestionamento. O prédio alto poderia não produzir, se invertesse esses dois fatores.

FOLHA – O que o senhor propõe no trabalho para a Secretaria de Desenvolvimento Urbano?

MALTA – O adensamento nas faixas ao longo do metrô.

FOLHA – Como estimular o transporte público?

MALTA – Com pedágio urbano.

FOLHA – Há outras alternativas?

MALTA – Há, mas o pedágio é a mais efetiva. Ninguém escapa. Quer cidade mais bem estruturada que Londres? Agora Nova York deve também utilizá-lo e São Francisco, na Califórnia, também está pensando.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: