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Sintomas da sociedade do automóvel

24/07/2009

ricardo_coelhoRicardo Coelho, Ecoblogue, 24 de julho de 20009

A sociedade do automóvel em que vivemos foi criada com o suposto objetivo de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, oferecendo-lhes melhores condições de mobilidade. Em vez disso, a mobilidade tem sido afetada negativamente pelo tráfego do automóvel e a qualidade de vida nas cidades degradada-se à medida que os automóveis proliferam.

O primeiro sintoma de que vivemos numa sociedade do automóvel é o fato de os cidadãos serem incentivados, quando não arrastados, para as zonas periféricas da cidade central de uma área metropolitana. Na Área Metropolitana do Porto, a cidade do Porto tem sofrido uma sangria populacional que ainda não teve o seu fim. Todos os outros concelhos ganharam população desde 1991 (dados do INE), com a excepção de Espinho (cidade com poucos movimentos pendulares para o Porto, pelo que não pode ser considerada “cidade dormitório”).

A maior parte dos movimento pendulares relacionam-se com o emprego ou o estudo. Tanto o ensino como o emprego continuam a estar largamente centrados no Porto, levando a que todos os dias centenas de milhares de pessoas tenham de percorrer grandes distâncias desde as suas casas até ao seu local de trabalho.

O segundo sintoma é, obviamente, o tráfego automóvel. A taxa de motorização na AMP (dados para 2000, do INE) oscila entre 34% (Porto, Valongo, Gondomar e Póvoa de Varzim) e 39% (Maia). A tendência é para piorar: entre 1991 e 2001 o transporte individual superou o transporte colectivo como meio de deslocação pendular: enquanto que a utilização do transporte colectivo decresceu de 42% para 28%, a percentagem de residentes que se desloca por automóvel aumentou de 31% para 52%. Em todos os concelhos da AMP se registou um decréscimo das deslocações por transporte colectivo ou a pé, ao mesmo tempo que o transporte automóvel aumenta.

Uma consequência óbvia deste movimento acrescido de automóveis é o congestionamento das ruas e estradas, o que, conjuntamente com o aumento da distância média percorrida, leva a que a duração média das deslocações pendulares aumente. Para a generalidade dos concelhos, o tempo médio de viagem por automóvel privado é inferior ao do transporte colectivo. Enquanto a situação não for invertida, criando faixas “Bus” para circulação de autocarros e investindo mais no metro e no comboio, não existe qualquer incentivo para a utilização do transporte colectivo para a maioria dos habitantes do distrito do Porto. Da mesma forma, é urgente alargar passeios e criar ciclovias, com o fim de promover as deslocações a pé ou de bicicleta.

Por detrás das diferenças no acesso à mobilidade estão as desigualdades sociais. Segundo dados do INE, na AMP são sobretudo os mais pobres (empregadas domésticas, operários) que utilizam os transportes colectivos, estando também mais representados no grupo de pessoas que se deslocam a pé. Também é possível observar uma marcada diferença no acesso ao automóvel privado entre homens e mulheres: no grupo que mais utiliza o transporte colectivo e anda a pé, encontramos três vezes mais mulheres que homens.

O terceiro sintoma relaciona-se com o desenho da cidade. O Porto está entre as cidades europeias com menor área verde por habitante e pouco ou nada tem sido feito para contrariar esta tendência. As cidades tornam-se assim ilhas de calor, espaços cada vez mais artificiais e cada vez menos propícios ao convívio, à medida que o betão e o asfalto avançam.

Outra forma de analisar este problema é pela desproporção entre o investimento em infra-estruturas para a circulação automóvel e o investimento nos transportes públicos. As faixas bus são virtualmente inexistentes fora do Porto e têm vindo mesmo a desaparecer: entre 2003 e 2006 o Porto perdeu 11 km de faixas bus, o equivalente a 1/3 do total. O metro está longe de atingir o seu potencial e a sua utilidade será sempre limitada enquanto não foram concluídas as linhas recentemente prometidas por Mário Lino. O comboio urbano tem melhorado na qualidade e rapidez do serviço mas faltam as ligações a outros modos de transporte, especialmente fora do Porto, para que seja uma alternativa de transporte viável para muitas pessoas.

O quarto sintoma manifesta-se na saúde de quem é forçado a respirar um ar poluído. Embora tenha havido melhorias, a qualidade do ar no distrito do Porto está longe de ser aceitável.

O quinto sintoma é a guerra civil nas estradas. Em 2007, registaram-se no distrito do Porto 1032 atropelamentos, com 21 vítimas mortais. Ao todo, houve 5259 acidentes com vítimas (cerca de 15% do total nacional), causando 89 mortes e 313 feridos graves. Porto e Gaia destacam-se como os concelhos onde houve mais acidentes (777 e 739, respectivamente).

Em muitas cidades pelo mundo fora, como Bogotá, Paris ou Londres, a cultura do automóvel vai dando lugar à cultura da mobilidade sustentável, seguindo propostas já apresentadas pelo Bloco de Esquerda no nosso país e melhorando a qualidade de vida dos cidadãos. No Porto, pelo contrário, reina a promoção do automóvel individual. Esta é mais uma das questões que disputaremos nas próximas autárquicas.

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One Comment leave one →
  1. 25/07/2009 12:31

    acontece não só no Porto!

    São Paulo o transporte público é uma palhaçada total!

    Ao invés de melhorar transporte público, governo incentiva compra de carro…

    Até dá para entender a lógica estúpida do governo, pois se minha fonte de receita fosse o imposto sobre consumo eu tbm incentivaria o consumo…

    Mas políticos não podem gerenciar o estado como se gerencia uma empresa…

    Quando os políticos vão entender isso não sei, visto que até agora a grande maioria deles não entendeu o básico, eles existem para servir o cidadão e não suas famílias e amigos….

    Voltando ao assunto, em São Paulo continuamos na década de 80 com relação a informação para o usuário do sistema de transporte público tem em relação a tempo de deslocamento…

    é impressionante como os políticos que adoram da leis não conseguem visualizar uma solução para esse problema…

    tecnologias existem e são de fácil implementação…

    mas Brasil é Brasil e transporte público ainda é visto como meio de transporte de pobre. E como ninguém quer parecer pobre, vamos comprando carros em 80 prestações, comprometendo nossas rendas futuras sem medo de ser feliz.

    VIVA O APOCALIPSE MOTORIZADO!!!!!!!!!

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