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MOBILIDADE URBANA EM SÃO PAULO

29/05/2009

Por Rafael Poço

São Paulo não precisa de mais espaço para carros. Nem pra ônibus, nem bicicletas. São Paulo precisa que ônibus, bicicletas, PEDESTRES, e até os carros, ocupem de maneira mais justa o espaço já disponibilizado.

A realidade da cidade revela investimentos e subsidio ao transporte individual em detrimento dos meios de locomoção coletivos ou individuais democráticos. Há quem confira ao problema caráter individual, relacionado à cultura.

Há quem culpe as péssimas condições dos transportes coletivos. No entanto, a questão merece ser tocada de maneira mais abrangente, sempre de modo a destacar a pouca atenção nas políticas publicas e programas governamentais.

Certamente não é nova a necessidade de maiores investimentos em transporte coletivo ou fomento a transportes “justos,” porém, é na atualidade que nos deparamos com discussões calorosas –mas pouco amplas – sobre o tema. E isso se deve a uma questão primordial: a minoria “super elitizada” (vulgarmente conhecida como classe AAA) não mais consegue fugir da imobilidade urbana.

Que os serviços públicos essenciais e de fornecimento obrigatório pelo Estado continuam a ser precariamente prestados não é novidade. Novidade é o fato de um deles atingir a todos invariavelmente, sendo indiferente o poder aquisitivo, classe social ou nobreza da região ocupada.

 Explica-se: o cidadão se protege da saúde gratuita miserável, associando-se a planos de saúde; da violência e insegurança, contratando seguros, blindando carros e casas, se isolando; da educação anêmica, pagando colégios e universidades para os filhos.

Já a “proteção” do transporte público não segue a mesma lógica burra, pois à medida que a fuga das péssimas condições dos ônibus e trens urbanos tem efeito com a compra de automóveis, a popularização do acesso aos veículos automotores tem deixado a cidade intransitável. Não há fuga; as ruas obrigatoriamente são margeadas pela calçada, que não pode ser utilizada pelos veículos, sejam de fabricação alemã, segurados com blindagem, sejam verdadeiras carroças motorizadas.

Novamente são todos iguais – assim como ocorre nos transportes de massas, porém, acometidos pela solidão e impaciência geradas pela fluidez quase nula dos carros, motos, carroças,… E quais são as alternativas? Para a mesma classe de “VIPs” frustrados, o que precisamos é de mais vias, para mais veículos. Além disso, mais veículos de transporte coletivo, que se assemelham a caminhões de carga ou carros de boi, em que pessoas contrariam teorias físicas sobre dois corpos em um mesmo espaço.

Já para outros, há necessidade de programas de desestimulo ao carro, consistentes no aumento dos custos para sua circulação, proibição de estacionamento, rodízio de caminhões, entre outros. O que não se percebe é que são manobras que visam primordialmente facilitar o fluxo, sem qualquer discussão sobre a retomada do espaço publico pelos cidadãos para sua interação, com qualidade de vida – e do ar.

Quando a prefeitura anuncia que as “valetas” existentes em cruzamentos ou esquinas serão extintas, pois afetam a fluidez do tráfego, ignora o esforço de tantos (e a morte de outros) que precisaram de muito tempo para explicar que aquilo se trata de algo com precedentes em toda a Europa, e de grande importância para pedestres e ciclistas: traffic calming, ou tranqüilizador de tráfego.

Para que haja mais segurança é imperioso que, em algumas regiões, haja diminuição de velocidade. O uso de bicicletas, que compreende sua aceitação nos trens e demais veículos de transporte de massas, representa parte considerável da solução, uma vez os custos e benefícios se mostrariam atraentes a grande parcela da população, que, quando se locomovendo por meios próprios, percorre distancias pouco expressivas, superadas facilmente com a bicicleta.

Afora os efeitos positivos no trânsito, fluidez e (des)ocupação do espaço publico, a bicicleta traria resultados para a relação e interação dos cidadãos com a cidade e com os demais, para a saúde e o meio ambiente. Claro que não se pode conceber todas essas vantagens de pronto, porém, cumpre ressaltar que não é opção excludente das demais.

Para que a saúde, meio-ambiente e inter-relacionamentos sejam beneficiados, é imprescindível que haja boas opções de transporte coletivo, desestimulo ao carro e ESTRUTURA de segurança e aceitação das bicicletas, com ciclovias, bicicletários e fomento a essa prática. A propósito, a mobilidade não se restringe aos meio de transporte “sintéticos”por assim dizer.

Quando se trata do tema é preciso abordar a locomoção dos pedestres, em especial. Se a cidade não for desenvolvida (ou reestruturada) para os cidadãos, difícil se tornará a obtenção de qualquer dos resultados acima mencionados. É preciso (re) destinar espaços públicos para pessoas, para que caminhem, interajam e voltem a ser parte da cidade, não apenas usuários. Os cidadãos devem ser a RAZÃO de qualquer investimento publico, não apenas destinatários dos serviços.

O que não se pode mais é permitir que ações de grande visibilidade midiática (e política), como a construção de pontes, túneis e viadutos, que consomem bilhões de reais do orçamento da cidade, tomem conta de toda a agenda do executivo referente à mobilidade urbana. Essas ações, quando realmente são úteis, geram efeitos pontuais, o que certamente não resolve problemas de uma cidade inteira.

Por isso, não é fácil aceitar que o governo continue com a Bilionária política de “socorro” à industria automobilística. Os bilhões e mais bilhões de reais anunciados nos últimos anos para fomentar essa indústria que, ao final, nunca tem resultados positivos, poderiam ser gastos na adequação dos transportes coletivos, o que demandaria empregos, também. Trata-se de uma estratégia pouco admirável, que consiste em criar o problema para vender a solução. Isso porque mais automóveis demandam mais vias, mais verba para ser desviada e mais atuação das construtoras e empreiteiras, que são credoras de diversos favores políticos.

Claro, que existem diversas outras falhas que culminam no insucesso da mobilidade urbana, tais como a atuação de verdadeiras máfias nas concessões dos serviços, o pouco estimulo (desconforto, insegurança) e a falha de logística para maior eficiência dos transportes coletivos, mas o que precisa ser combatido urgentemente é esse modelo de governo que vive de esmolas e favores. Por isso é preciso uma atuação positiva dos cidadãos, consistente na participação nas decisões sobre a “vida” das cidades, dos procedimentos de aprovação das obras e da reprovação de projetos que não atendam aos interesses sociais.

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3 Comentários leave one →
  1. ogum777 permalink
    31/05/2009 1:16

    hummm. gostei, relata bem a fragmentaçãourbana. sãopaulo há muito deixou de ser cidade, pra se tornar uma confederação de feudos que não se comunicam entre si. entre um feudo e outro, transita-se a bordo de lentas carroças, com medo dos assaltos, a insegurança assolando.

    a imobilidade da classe AAA é contraposta pela imediatidade de comunicação: internet é um exemplo – o que atenua os efeitos da lentidão. a verdadeira imobilidade se dá nas classes mais baixas, que precisam movimentar-se fisicamente para trabalhar, estudar, e etc.

    a cidade fragmentou-se. um passso adiante e estaremos na guerra civil molecular descrita por Hans Magnus Enzensberger – a precariedade do transporte público é apenas um sintoma.

    o que acontecerá com a classe AAA no dia em que o morro descer?

  2. 31/05/2009 8:49

    Muito bom teu artigo. É bom ressaltar também que a maioria dos projetos adotados pelos políticos para integrarem o PAC da mobilidade em função da Copa não foram discutidos com a população. Existem coisas absurdas tipo a construção de dois Túneis submarinos ligando a Ilha de Florianópolis ao continente. E os estudos de impacto ambiental??
    abs

  3. Serna permalink
    02/06/2009 14:17

    …e utilizar os rios pinheiros-tietê como hidrovias, usando cabos semelhantes aos do trólebus para mover as barcas, como alternativa de transporte coletivo

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