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A INDÚSTRIA DAS INDÚSTRIAS

26/05/2009

Andy

Sexta-feira passada, 22 de maio de 2009, a revista Carta Capital realizou um Seminário de Economia, em comemoração aos 15 anos da revista.

A principal estrela do Seminário era Nouriel Roubini, economista turco naturalizado americano, professor da New York University, principal proprietário do site RGE Monitor, e tido por muitos durante muito tempo como uma Cassandra que só fazia predições ruins, mas que se confirmaram com a crise econômica recente. De Cassandra a celebridade, foi um pulo.

Os demais comentaristas eram Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda na Ditadura Militar, Luiz Gonzaga Beluzzo, economista professor da Unicamp, Aloizio Mercadante, senador, e a surpresa, Guido Mantega, atual ministro da Fazenda.

As análises sobre a crise contemporânea não passaram daquilo que os principais periódicos publicam constantemente: retração do comércio internacional, quebradeira da indústria automobilística americana, percepção da destruição do sistema bancário americano, bem como da crise mais acentuada nos países da Europa do leste. Ressaltou-se o papel de China e Brasil na nova economia que virá após essa crise. E também a mudança do perfil das exportações brasileiras: diminuição dos manufaturados e aumento das commodities, para o mercado chinês.

Todos os participantes concordavam que o Brasil deve passar relativamente incólume pela crise, em razão da nossa pouca dependência do mercado externo e a possibilidade da compensação destas perdas pelo aumento do mercado interno.

Até aqui, nada demais. Mas a fala do Senador Mercadante conteve uma manifestação preocupante. A ressalva do apoio do atual Governo à indústria automobilística, por ser “a indústria das indústrias”. Ou seja, pela importância em empregos diretos e indiretos açambarcados por esse setor. E a necessidade de se aumentar a venda de veículos.

Posteriormente a fala de Guido Mantega foi no mesmo sentido. O ministro encheu-no s de dados referentes à economia, mas o que se ressaltou demais foi o quanto à produção de veículos atual está a alcançar os patamares de 2008….

Ora, como comemorar? Conforme Mercadante e Mantega deixaram claro, a percepção do Governo Federal é de que nossa economia gira em torno do carro! Carros, carros, carros! Bens de consumo durável cada vez menos durável, cada vez mais curto, a poluir antes de rodar, poluir rodando, e poluir depois do descarte!

Ou seja, não se vê nenhum vislumbre de mudança estrutural no plano da economia brasileira. Por quê apenas carros? Não há outros setores que devam ser incrementados? Por quê investir no produto tecnológico contemporâneo que mais se predispõe a acentuar a diferença social entre humanos? Por quê investir apenas e tão somente na única sistemática de transporte que é inviável?

Minha percepção ao sair do seminário é que efetivamente estamos num mundo de loucos. Estamos adotando a estratégia da roda triangular: sim, um grande avanço em relação à roda quadrada! Diminuiu-se em 25% (vinte e cinco por cento) a quantidade de trancos por volta! Agora, roda redonda que é bom… Bom, isso é coisa de sonhadores, né?

Há um filme, uma comédia, “Idiocracia” (“Idiocracy”, 2006, direção de Mike Judge), que parte do pressuposto de que o futuro será dominado pelos idiotas. A produção agrícola está falida pois as plantações são regadas com Gatorade, pois, afinal, “todos precisam de eletrólitos!”. O herói da comédia impõe a irrigação com água e causa, primeiramente, uma crise econômica brutal, pois diminuiu o consumo da mais importante indústria: a indústria de Gatorade!

De fato, a economia nacional (e não apenas a nacional, mas em demais países isso ocorre) depende sobremaneira da indústria automobilística. Milhares de empregos diretos e indiretos. Ok, é fato. Mas o tráfico e o jogo do bicho também empregam. E também matam – afinal, a poluição de veículos mata um número assombroso de pessoas, tanto em São Paulo quanto em diversos lugares do mundo. E a dependência do petróleo mata pela poluição e também pelas guerras que provoca.

Idiocracia. Este é o termo mais adequado para definirmos os governos do mundo que, nos últimos 100 anos, promoveram à larga a invenção mais burra da humanidade: a caixa de metal de 1,5 tonelada utilizada pra carregar uma pessoa de menos de 100 kg.

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6 Comentários leave one →
  1. 26/05/2009 17:04

    O século XX foi o século do automóvel. Não custa lembrar que estamos no século XXI… 😉

    Esse modelo norteamericano centrado na indústria automobilista está no fim. Se o Brasil quiser mesmo ser aquilo que sonham os nossos governantes, melhor pensar em soluções para esse novo século e não a cópia de modelos que já mostraram ao que vieram.

  2. 26/05/2009 17:43

    Muito bom! O “delay” terceiromundista, o fetiche nos SUVs, a aposta nos carros como pilar da monocultura industrial, a ferrovia só como transportadora de matéria prima… Tudo dentro da divisão internacional dos ônus e bônus. Não fica difícil entender porque a GM não larga o osso da subsidiária latinoamericana para a Fiat.

    A superação do delay e da idiocracia não virá nem com a importação de modelos novos nem com a repetição de antigas importações.

    A mesma carta capital publicou há algumas semanas um artigo de Claudio Weber Abramo sobre corrupção. E ele começa contando uma historinha chamada “A marcha dos Imbecis”. Bom complemento para a idiocracia. Vale ler: pt.1 – http://is.gd/FysL , pt.2 – http://is.gd/FywI, pt.3 – http://is.gd/FyGp

  3. Cássio permalink
    27/05/2009 0:12

    Pra variar o Brasil caminhando na contra-mão da tendência internacional. Ainda pagaremos um preço caro por essa concepção de crescimento sem desenvolvimento. Não vejo horizonte agradável nesse mar de lama podre, onde governantes despreparados citam as regras claramente esmagando a maioria da população em detrimento de seus prórprios benefícios. Só ouço falar em petrobras, pré-sal e indústria automobilistica. Definitivamente este não é o Brasil que eu amo.

  4. 09/06/2009 14:03

    eu gostei obrigado eu apredi muitas coisa

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  2. um corpo estendido no chão. | as bicicletas

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