Skip to content

Quando bicicletas e praia NÃO combinam

08/12/2008

praia-biciNo último sábado aconteceu uma feliz coincidência. Na verdade, duas. Cada uma com um final bem diferente.

Centenas de cidadãos, com iguais direitos de acordo com qualquer Estado Democrático de Direito, resolveram aproveitar um sábado de sol na praia, deixando a loucura do transito, poluição e pressa da região metropolitana.
Acontece que algumas dessas pessoas escolheram meios diferentes para chegar ao mesmo ponto. Alguns, menos dispostos, mais pesados ou não muito preocupados, adentraram seus veículos automotores – muitos deles, sozinhos – e partiram com suas latarias cuspidoras de gases inimigos.

Outra parte, no entanto, vestiu roupas leves, passou protetor solar e reencontrou amigos e desconhecidos que, juntos, seriam parte da pedalada ao litoral de São Paulo. Partiram desde sempre trocando idéias, ajudas e compartilhando a brisa que compensava cada pedalada.

Daí em diante, partiram para um dia que teria finais bem diferentes. Os primeiros (aqueles das latas flatulentas) passaram pelas ruas e avenidas, acessaram à estrada, PAGARAM o pedágio e, em poucas dezenas de minutos, estavam com os pés na areia.

Os demais enfrentaram problemas desde sempre. No começo, houve uma surpresa: a pioneira policia militar escoltou os ciclistas. Que alegria! Quanta preocupação!

Ledo engano. Estavam apenas tratando de guiar todos para o que estava armado mais à frente!

No primeiro acesso à Rodovia dos Imigrantes, o susto: uma dezena de viaturas bloqueou por completo o acesso à estrada. A explicação: proibido ciclista na via, por questões de segurança. Entendido o problema, todos se desmontaram de suas bikes e passaram a caminhar, como bípedes que são!

A seguir, voltaram a pedalar – sempre pelo acostamento – e aquela frota de viaturas (desnecessárias, obvio) acompanhando a todos na faixa ao lado, o que causou lentidão para os carros e motos, que podiam celebrar a liberdade de ir para a praia sem serem importunados.

Alguns quilômetros percorridos e outra tentativa de frustrar a viagem. Mais uma vez, a arbitrariedade não prosperou e o bloqueio foi pacificamente furado.

A essa altura, o capitão da Policia Militar já se perdera nas milhares de explicações infrituferas que vinham de seus superiores, na tentativa de explicar poque o Código de Transito Brasileiro não estava sendo honrado. Por que a lei Federal 9503/98 estava sendo descumprida por uma “possível” portaria do DER, a qual não foi apresentada em nenhum momento.

Foi realmente uma situação embaraçosa: primeiro, pelo desconhecimento por parte de tão eminentes autoridades (a seguir apareceu o Tentente Coronel) dos direitos básicos de ciclistas e pedestres. Segundo pelo desentendimento entre a Polícia, o DER, a ARTESP e a ECOVIAS, quanto à possibilidade – ou não – de bikes na estrada.

Voltando à movimentação, no Km 28, o bloqueio que mais rendeu! Quase DUAS horas parados sob o sol, negociando com “responsáveis” pela segurança e ordem do transito. Irredutíveis, informavam que a ordem vinha de cima, da Secretaria, do Governo, do DER, enfim, passavam a batata quente pra quem não estava ali! Isso com certeza facilitou!

O comandante chegou a repetir que preferia nos escoltar até a baixada, a ter que nos escoltar para a São Paulo novamente. Mas não tinha permissão, pois na região de serra, nos túneis, há placas que proíbem bicicletas.

Até pra isso encontrou-se solução: por que não descer pela serrinha da Manutenção, onde não circulam carros, nem motos, já que o objeto da discussão era a segurança!? Mais uma vez confusas, as autoridades requereram alguns minutos para refletir e tentar obter autorização. Realmente tentaram. Mas não obtiveram!

E qual a explicação? Segurança dos ciclistas!

Alguns ciclistas já estavam exaustos. Já se passavam 4 horas, entre pedaladas e paradas sob aquele sol. Tudo sem se alimentar, pois a previsão era de parar no posto em que há lanchonetes, no quilometro 40!

Por essa razão, cederam! Propuseram, então, que fossem autorizados a alcançar o km 40, onde já havia outros ciclistas que conseguiram se desvencilhar. Isso, para poder abastecer, tomar um lanche, sucos, e depois voltar.

Pedido negado. Alguns, já abatidos, aceitaram a escolta policial para subir a serra! Dois grupos saíram dessa maneira e, quando os demais se preparavam para fazer o mesmo, veio a informação: AUTORIZADA A DESCIDA ATEH O KM 40!

Alguma autoridade com mínimo de bom senso, entendeu que nem todos conseguiriam pedalar aquela subida, sob o sol, sem antes de alimentar.

Pergunta-se? Por que tantas horas de desgaste, tanto dinheiro e recursos pessoais da Policia, que deveriam estar combatendo crimes e fiscalizando OS CARROS QUE PASSAVAM EM FLAGRANTE EXCESSO DE VELOCIDADE, foram desperdiçados ali!?

Era uma questão de ego? De mostrar quem manda? De medir forças? Afinal, de quem partiu a ordem, tão tardia e radical!? Governador, secretário, Ecovias!?

De qualquer modo, os quase 200 ciclistas restantes, desceram até o km 41, onde havia o maior bloqueio policial, com presença, inclusive, da força tática da PM. Dali, certamente, não haveria continuidade. O clima não permitia qualquer nova negociação!

Para muitos, aí foi o fim da viagem. Frustrados na serra, família e amigos frustrados esperando na praia, os ciclistas retornaram.

Ficam os seguintes questionamentos:

–>Afinal, bicicleta vai ser respeitada como meio de transporte, como prevê a LEI!?

–>Aqueles que se dispõe a fazer algo para mudar, vão ser respeitados como verdadeiros cidadãos, ou postos à margem como baderneiros?

–>Mais que bicicletas ou pedágios, O DIREITO HUMANO BASICO à LIBERDADE, o acesso ao turismo ou à mobilidade na cidade vão continuar sendo (mal) tratados como acessórios na agenda política, em nome do interesse economico de todas a industria e mercancia com interesses no colapso das regiões urbanas?!

–>Os ciclistas vão se portar como os demais cidadãos, que esperam por políticas publicas de saúde enquanto morrem nos leitos, que esperam por segurança enquanto blindam seus carros (quem pode, claro) e que esperam por educação enquanto seus filhos passam manhãs a pichar muros por falta de professores!?

E ai, ciclistas?!

Anúncios
24 Comentários leave one →
  1. Fabiano permalink
    11/12/2008 18:06

    Eu vou (voltar) a ir de bicicleta para o litoral paulista.
    Seja quantas forem as vezes que serei ilegalmente barrado.
    Seja quantas dezenas de viaturas policiais foram aquelas que tentarem me impedir.
    Eu vou continuar a descer a serra de bicicleta.

    Ninguém irá conseguir me tirar este direito.

  2. Flausino, L permalink
    12/12/2008 12:10

    Eu queria tirar uma dúvida, pois faz muito tempo que saí de São Paulo [Morei em Rio Claro, perto de Limeira até 91]:

    Atualmente, todas as vias que ligam Sampa ao litoral [no caso, Santos] são privatizadas?
    Pois se forem, e caso haja dedo da Ecovias, para impedir o trajeto de vocês, concordo inteiramente com o comentário. Pois se for essa a resposta, cabe uma reflexão sobre a “autoridade sobre os supostos cuidados de tais vias” que consideram as bicicletas incompátiveis com estradas.
    Qual a autoridade que eles tem sobre as legislações que permitem o uso [consciente] de bicicletas nas estradas, como centenas de milhares de pessoas fazem no mundo [Sim, supostos poderes: existe uma modalidade chamada Cicloturismo], ou o que é pior, sobre o supremo direito de ir de vir do cidadão brasileiro?
    Pensando na Constituição, chego a uma conclusão mais triste: a de que, além dessa pendenga inicial com uma empresa particular, houve envolvimento de representantes do Estado (Polícia), o que nos leva a conclusão, de que em determinados momentos há uma subversão de agentes da sociedade que deveriam garantir nossos direitos fundamentais, pelo contrário, nos cerceiam.
    Fico triste de saber que ainda temos que lidar com obstáculos como esses. Se os problemas ainda fossem a qualidade das estradas, talvez, digo talvez houvesse justificativa.
    Abraços e continuemos na busca de mostrar que não somos baderneiros, ms sim que nos preocupamos com a Sociedade tanto quanto [supostamente, ou aparentemente?] eles se preocupam.
    Lucio Flausino

  3. 14/12/2008 19:01

    Fiquei sabendo do assunto pela lista de email da bicicletada sp, ainda não tinha entedido muito bem o que tinha acontecido.
    As vezes me sinto rouca de tanto falar disto, é simplesmente absurdo e sem sentido nenhum este tipo de atitude, fico me perguntando as vezes como é possivel seres que compartilham vivências estarem tão longe, a pergunta que esta na minha cabeça é o que realmente a polícia defende tanto, concerteza não é a segurança dos ciclistas.

  4. Leandro Koko permalink
    17/12/2008 9:28

    Sds ciclistas!
    Realmente não dá pra entender o porque dessa situação toda, em vez de ciclistas as fotos parecem mostrar um bando de bandidos, tamanho o nº de policiais presentes.
    Creio que deveríamos entrar em contato com os orgãos competentes que estão acima da PM e que realmente tem o dever de zelar pela segurança de todos e cumprimento das leis.
    Abç
    Koko

  5. ecourbana permalink*
    18/12/2008 9:09

    Galera, a gente já está buscando os meios necessários pra assegurar o respeito aos nossos direitos.
    Já juntamos (quase) tudo de Leis, casos práticos e decisoes judiciais pra embasar nosso direito de circular com a bike, seja onde for!!!!
    Assim que o documento final estiver pronto, vamos disponibilizar no site, como um Manifesto dos Ciclistas!

  6. ecourbana permalink*
    18/12/2008 9:12

    Lucio, em tese a Ecovias, enquanto concessionário, pode regulamentar o uso das vias e, se preciso, proibir a circulacao de determinados veículos. O que nao pode é inviabilizar a decida de quem OPTA por esses veículos.
    NO caso, se é perigoso usar o túnel de bike, que seja encontrada (utilizada, pois ja existe) outra opção!

  7. JOSE LUIZ DE MELO permalink
    12/01/2009 13:23

    Estou de acordo com a reação dos ciclistas. Eu tb viajo de bicicleta de Campinas a Franca, SP, mas volto de “busão”. É uma delícia. Faço em dois dias. M projeto projeto é ir de Campinas a Paraty, RJ de bike; curtir as praias e voltar de “busão”.
    Tenho 60 anos completados agora em dezembro/08.
    Me mandem o manifestou para eu apoiar.
    Abraços. MELO

Trackbacks

  1. (I) Interplanetária - O período precedente « Bicicleta na Rua
  2. (IX) Interplanetária - Polícia Rodoviária gasta mais de R$16 500,00 impedindo ciclistas de irem ao litoral « Bicicleta na Rua
  3. (XII) Interplanetária - Bloqueio dos Caminhos do Mar « Bicicleta na Rua
  4. (XIII) Interplanetária - A Estrada da Xiboca « Bicicleta na Rua
  5. (XVI) Interplanetária - Faltam bicicletários no Litoral Plaza Shopping « Bicicleta na Rua
  6. (XVII) Interplanetária - O retorno a São Paulo « Bicicleta na Rua
  7. (IV) Interplanetária - Quantos ciclistas tinham, afinal? « Bicicleta na Rua
  8. (XV) Interplanetária - Santos, enfim! « Bicicleta na Rua
  9. Mais da Interplanetária - Esses motoristas… « Bicicleta na Rua
  10. (XIV) Interplanetária - “Pequenos” problemas técnicos: o pneu vegano e a Estrada de Manutenção « Bicicleta na Rua
  11. (II) Interplanetária – Rodas a girar rumo ao litoral « Bicicleta na Rua
  12. (III) Interplanetária – As primeiras infrações da PMR e os bloqueios « Bicicleta na Rua
  13. (VIII) Interplanetária – Policiais ignoram leis « Bicicleta na Rua
  14. (X) Interplanetária – Bares amigo e não amigo dos ciclistas « Bicicleta na Rua
  15. (XI) Interplanetária – Os primeiros a chegarem a Santos « Bicicleta na Rua
  16. (VII) Interplanetária – Policiais cumprem horas extras para bloquear descida de ciclistas ao litoral « Bicicleta na Rua
  17. (VI) Interplanetária – Ciclistas são impedidos de pedalarem até o litoral « Bicicleta na Rua

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: