Skip to content

Por outras ecologias metropolitanas?

03/12/2008

Cidade de São Paulo vista do Parque Estadual da Serra da Cantareira, núcleo Pedra Grande

Cidade de São Paulo vista do Parque Estadual da Serra da Cantareira, núcleo Pedra Grande

 

 

 

O texto a seguir é um trecho do artigo publicado por Roberto Luís de Melo Monte-Mór, professor e pesquisador nas áreas de Economia e de Urbanismo, que discute a relação normalmente tida como contraditória entre os espaços construídos, derivados da urbanização extensiva, e os espaços naturais, apontando para a necessidade de se rever os modelos atuais de desenvolvimento territorial e, também, para a possibilidade do surgimento de novos ambientes sócio-políticos.

 

A íntima relação entre a ecologia urbana e a questão ambiental não parece ter sido ainda de fato compreendida, mesmo que se aceite a importância crescente das concentrações metropolitanas e urbanas na desarticulação – imediata e distante- do equilíbrio natural global e de ecossistemas específicos. Há, entretanto, uma ideologia ecológica ligada ao capitalismo ecológico que não apenas faz naturais as relações sociais, mas malthusianamente se volta contra a população e o migrante, enquanto contrapõe jardins nos altos prédios dos centros metropolitanos a um ruralismo mítico da volta à natureza, reificando a dicotomia ambiente natural–ambiente construído. Essa interpretação naturalista da ecologia urbana naturaliza a própria relação sociedade-natureza confundido pobreza com deterioração ambiental, igualando crise social e econômica à crise ambiental, muitas vezes culpando a vítima.

Alguns pontos parecem interessantes para se buscar enfoques contemporâneos para outras ecologias urbanas – ou metropolitanas. Uma das questões principais que se coloca diz respeito às mediações entre o nível micro da análise ligada aos aspectos da reprodução da vida quotidiana, e as grandes questões ditas urbanas: habitação, alimentação, saneamento básico, transportes, serviços urbanos, poluição industrial, padrões de consumo, etc.

A nível dos núcleos urbanos-metropolitanos, os aspectos de saneamento aparecem como centrais em países como o Brasil, onde o caráter incompleto da produção e organização do espaço social cria sérios problemas ambientais ligados à reprodução coletiva. Serviços sanitários precários ou inexistentes (água, esgoto, lixo) ameaçam o quotidiano das populações urbanas pobres, enquanto a disposição final dos resíduos (sólidos e líquidos) atinge o conjunto das áreas urbanas, suburbanas e espaços regionais. Soluções tradicionais têm-se mostrado ineficientes e onerosas, demandando altos investimentos públicos de um Estado há muito falido em sua capacidade de promover e administrar o bem-estar coletivo. Ademais, a altíssima densidade tendencial das áreas urbanas dificulta possíveis soluções alternativas. Nesse sentido, é o próprio modelo territorial urbano e metropolitano que necessita ser revisto em busca de alternativas múltiplas que garantam maior permeabilidade e integração entre o espaço natural e espaço social.

…Os espaços hegemônicos e construídos pelo industrialismo fordista têm que se abrir para a pluralidade e diversidade que podem ser propiciadas pelo resgate das mediações e articulações dos muitos subespaços que resistiram à modernização frustrada e incompleta. Talvez por aí passem as possibilidade de reinvenção dos ambientes sócio-políticos contemporâneos, tendo por suposto a (re)criação das muitas formas espaciais quem tem assumido a urbanização extensiva.

É no bojo dessa expansão do tecido urbano–industrial que vêm sendo forjadas outras formas de cidadania, aquelas que surgem dos novos papéis que a sociedade civil vem chamando a si diante de um Estafo do Bem-Estar falido… Nesse contexto, uma das tarefas que se apresenta é explorar as possibilidades de criação e fortalecimento de uma ampla economia popular urbana, como uma necessária contrapartida de resistência a uma economia mundial centrada na exclusão de espaços e populações, e, consequentemente destruidora do ambiente natural e social por ela excluído. Apenas com outras (novas e velhas) bases econômicas, voltadas para a garantia da reprodução coletiva, as cidadanias que aparecem querer nascer, incorporando a consciência ambiental e ecológica, poderão crescer e frutificar, contribuindo para novos arranjos sócio-espaciais e ambientais nos centros e periferias diversos.

 

MONTE-MÓR, R. L. Urbanização extensiva e lógicas de povoamento: um olhar ambiental. In: SANTOS, M.; SOUZA, M. A.; SILVEIRA, M. L. (orgs.).   Território, globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec/Anpur, 1994. 

 

 

 

 

 

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: