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CARRO DE BRANCO, BICICLETA DE NEGRO

20/11/2008

Em homenagem ao Dia da Consciência Negra trouxemos para frente do blog um dos nossos posts de maior sucesso.

O título é provocativo, mas já o justifico.

Domingo, 1º de junho de 2008, final de tarde fria e com garoa. Por que não pedalar? Foi o que pensei antes de me dirigir à reunião do coletivo. O local dista cerca de 14 kms de minha casa, todavia, menos de 1 km de distância de uma estação de metrô. Eu, por minha vez, moro a cerca de 2 kms de outra estação do metrô. Ora, poderia ir de metrô à reunião, mas optei por ir pedalando. O verbo é esse: optar. Ter que escolher entre.

Pedalei com uma bicicleta reclinada de fabricação artesanal. Veículo comprido, chama muita atenção, por pedalar-se praticamente deitado. A posição permite uma visão diferente da cidade, daquela que normalmente se tem em uma bicicleta normal, onde pedalamos encurvados para frente, vendo o chão passar rápido sob a roda dianteira, e pouco podendo ver da paisagem. Fiz o trajeto lentamente, principalmente nas subidas, uma vez que meus músculos ainda não estão adaptados a esse tipo de bicicleta.

Cheguei ao local da reunião, guardei a bicicleta, e, terminada a reunião, voltei para casa. Noite fria e úmida, beirando os 10 graus centígrados. Na volta, tal qual na ida, não fiz o caminho mais curto, mas “passeei” um pouco pela Avenida Marques de São Vicente. Quase na esquina desta avenida com a Avenida Nícolas Boer quase sou atropelado por um carro que saía do Mercado do Carro. O Mercado do Carro é uma loja de acessórios e peças para automóveis, e parece funcionar 24 horas por dia. Estava com seu estacionamento lotado, em uma fria noite de domingo, com intenso movimento….

Sociedade do Automóvel. Sim, nada mais lógico. Em uma cidade onde o automóvel reina, nada mais lógico que o comércio renda-se a ele. O automóvel é a opção “natural” do paulistano. O carro dá “liberdade”. Foge-se assim do transporte público…

Enquanto eu trafegava pela Marquês de São Vicente converso com dois outros ciclistas, que retornavam do trabalho rumo às suas casas. Um porteiro de um prédio, outro ajudante geral em um restaurante. Após um dia de pesada labuta trafegavam debaixo da garoa, molhados. Eu estava com a fantasia completa de ciclista, o que incluía capacete, um anorak, calças… Tudo me mantinha relativamente quente e seco, inobstante o tempo. Eles não, cuidando para não sujar a barra da calça na corrente da bicicleta, um com um boné a proteger a cabeça, outro com um gorro. Moradores da Zona Norte, comentaram que o metrô não ficava lá exatamente muito perto das suas casas. Um deles ainda comentou que, se pudesse carregar a bicicleta no metrô ou no ônibus poderia fazer um trajeto menor…. Silenciei sobre as bicicletas dobráveis. São caras, não são acessíveis a quem pedala para o trabalho não por opção ecológica ou para manter a forma, mas para economizar o dinheiro da condução. São bicicletas para a classe média alta, aqui no Brasil. Classe média essa que é escolarizada, é branca, e tem 3 ou 4 carros em sua garagem. E não vai ao trabalho sem seu carro pois espera uma utópica e distante melhora no sistema público de transporte, mas é capaz de aplaudir a inauguração de uma grande obra que beneficiará apenas quem possui automóveis.

As bicicletas dobráveis disponíveis no Brasil são importadas. Basicamente são bicicletas que usam rodas aro 20, portanto não ficam muito compactas quando dobradas. Quanto maiores as rodas da bicicleta, mais confortável ela será. Aro 20, menor que as medidas de aro utilizadas pelas onipresentes mountain-bikes (que, em 999% dos casos, nunca viram montanha ou barro por perto…), mas ainda bem confortáveis. Prestam-se ao uso recreativo.

As bicicletas dobráveis de menor tamanho, mais compactas ainda quando dobradas, são raras no Brasil. Há algum tempo a Dahon vendeu alguns modelos da Curve D3. Marcas como Bike-Friday e Downtube (americanas) e a clássica Brompton (inglesa, dobrada fica com volume ligeiramente maior que uma maleta de bordo e cabe debaixo de uma cadeira) só são vistas quando se encontra alguém que tenha trazido-as na mala do avião.

São bicicletas relativamente caras, mesmo lá fora. A Curve D3, da Dahon, custa no site americano 530 dólares. Aqui no Brasil foi vendida em média a 1.400 reais. A Brompton tem seus modelos mais básicos vendidos a cerca de 450 libras, embora usadas possam ser encontradas por até 100 libras, no E-bay inglês. A Downtube Mini é vendida no mercado americano por cerca de 460 dólares.

Nenhuma dessas bicicletas seria impossível de se fabricar aqui no Brasil. Temos uma grande indústria de bicicletas, que detém a tecnologia necessária para tanto (muito embora saibamos que o dinheiro para o incremento da atividade industrial dificilmente financiará a fabricação deste veículos, uma vez que está alocado para a indústria do etanol….). Nenhuma dessas bicicletas é difícil de se usar, uma vez que são bicicletas normais, apenas com rodas menores e com a possibilidade de dobrar, encolhendo de tamanho. Nenhuma dessas bicicletas pede ciclistas em forma: elas são feitas para trajetos curtos, como eu faria nesse domingo à noite: pedalaria até a estação do metrô, e desceria na outra estação, descendo e pedalando a mesma bicicleta até o local para onde me dirigia. Assim como fazem os ingleses, que muito se utilizam deste tipo de bicicletas.

No entanto a indústria nacional não acordou para esse produto… Estas são bicicletas para aquilo que os anglo-saxões chamam de commuting: viajar de casa para o trabalho, e vice-versa. É até por isso que a linha de acessórios da Brompton inclui até uma espécie de maleta executiva. Em Londres não é raro ver um engravatado num veículo destes. Mas, aqui no Brasil, quem usa a bicicleta para ir trabalhar não é o engravatado branco, mas o pobre que, aqui, via de regra é afro-descendente. Assim, temos apenas duas gamas de bicicletas no mercado nacional: as bicicletas baratas de supermercado, e as caras para a recreação (esporte, passeio, e etc). Assim, terno e bicicleta não coincidem. E pegar transporte público é, necessariamente, usar metrô e ônibus, quando não mais do que dois ônibus e um trem.

Portanto, não é de esperar que o sonho de consumo e prova de ascensão social seja comprar um carro em 90 prestações. Os remediados compram seus carros zero em 90 prestações e, por sua vez, seus antigos carros são vendidos, agora também financiados, a quem está ligeiramente abaixo na escala social. E assim o carro, cada vez mais onipresente, se espalha pela metrópole. E, portanto, um ciclista numa fria noite de domingo pelas ruas de São Paulo só pode ser mesmo ou muito pobre, ou um ser de outro planeta, que diversas vezes ouviu: “olha a bike de e.t.!”.

Serviço (infelizmente páginas apenas em inglês):

Alguns fabricantes de bicicletas dobráveis:

http://www.brompton.co.uk/

http://www.strida.com/

http://www.downtube.com/

http://www.dahon.com/

Sites sobre commuting e bicicletas dobráveis:

http://www.foldsoc.co.uk/

http://commutebybike.com/cats/commuting-101/

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12 Comentários leave one →
  1. JP Amaral permalink
    06/06/2008 9:32

    Odir, parabéns pelo texto. De excelente qualidade: título, foto, conteúdo, tudo muito bom!
    E seja bem vindo ao coletivo!

    Abraços

    JP

  2. leonardo permalink
    24/06/2008 19:54

    Po, será que a marca Blitz é tão desconhecida assim?
    Bom, olhei uma no natal e fiquei apaixonado, se nao me engano, pesava algo em torno de 350 reais (não tão cara quanto as citadas acima) e pelo o que deu pra olhar, muito pratica e bonita.

  3. ogum777 permalink
    25/06/2008 8:40

    A Blitz é indiretamente citada. É uma bicicleta de aro 20 e, como dito no texto, não fica muito copacta quando dobrada. a Referência no texto é às bicicletas dobráveis de aro 16, menores.

  4. Fabiano permalink
    25/06/2008 17:11

    Caro amigo, gostei muito do seu blog, já assinei seu feed.
    Seu texto é muito bom e vai direto ao ponto. Eu estou economizando dinheiro por quase um ano para comprar uma dahon Eco. Mas adivinhe, não tem para vender. Uns dizem que o depósito pegou fogo, outros que não há previsão, etc.
    Eu só encontrei a tal da Blitz para comprar, mas não acho ninguém que tenha uma e possa me dizer se vale a pena. Você ou alguém dos visitantes teria informações sobre a blitz?

  5. 30/06/2008 10:50

    Fabiano,

    Eu tenho uma Blitz. Não tenho como comparar com as outras dobráveis citadas pois não tive o prazer de pedalá-las (a única dobrável que pedalei antes foi uma Berlineta aro 14). Pelo menos para o meu uso ela satisfaz. Não a uso diariamente, pois em geral vou de bicicleta (aro 26) diretamente para o trabalho, mas às vezes quando preciso levar minha esposa ao trabalho dela com o carro coloco a Blitz no porta-malas e de lá sigo para o meu trabalho. A única coisa que incomoda nela é que o movimento central é muito baixo (creio que seja o mesmo nas demais dobráveis) e facilmente bate-se os pedais em uma curva ou em quebra-molas. De resto, nada a reclamar. Quanto ao uso dela em metrô também não posso opinar já que aqui em Brasília o metrô não atende ao meu trajeto ao trabalho (é mais rápido ir diretamente pedalando).

  6. Fabiano permalink
    01/07/2008 11:44

    Obrigado Sérgio. A Blitz sai R$ 300 mais barata que a Dahon e já vem com bagageiro. Mas eu ainda estou pesquisando as possibilidades.
    Abraços.

  7. Célia permalink
    04/08/2008 0:01

    Olá Fabiano,
    Eu li sei comentário procurando informações sobre a bicicleta dobrável Blitz e gostaria de saber se você a comprou e , se sim, o que está achando. Estou querendo comprar uma dobrável, mas só vi uma Dahon pessoalmente, que eu adorei, mas custa quase o dobro da Blitz..

    Obrigada!
    Célia

  8. ecourbana permalink*
    05/08/2008 11:35

    A blitz é a unica feita de aluminio, salvo engano. Isso é um ponto positivo.
    Conheco 2 pessoas q tem a blitz, andam no METRO numa boa e inclusive vao para a Bicicletada com ela.
    Eu experimentei e gostei. TbM ANDEI NA dahon e na flexbike.
    Nao vi mt diferenca!!!

  9. Marcos Izonel permalink
    10/11/2009 16:59

    Cara parabéns pelo texto.

    Eu só pedalo para ir até a academia, e é uma bike de mercado rsrsrsr.

    Adoraria poder ir até o trabalho direto de bike, mas aqui em São Paulo existem poucas ciclovias e enfrentar a Av. 23 de maio de bike é suicidio, perguntem ao motoqueiros.

    Mas interessante esse papo das dobráveis, vou procurar me informar melhor gostei.

  10. leonardo permalink
    11/05/2011 16:19

    olá! suas ponderações estão corretas, mas sempre há exceções. eu tenho uma strida e uma gocycle e não tenho mais carro. moro no rio e agora estou de mudança para sp. vou tentar de todas as forma manter o lifestyle, até mesmo para servir de exemplo.
    abraço e parabéns pela iniciativa do blog

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