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Comer carne é comer o planeta

18/11/2008
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Ricardo Coelho, Ecoblogue, 17 de novembro de 2008

A pecuária é um sector em rápida expansão. Segundo a FAO1, em 2050 o consumo de carne e de leite será quase o dobro do registado no início do século. Ou seja, para manter o (mau) status quo da poluição gerada pela pecuária, teríamos de reduzir para metade a poluição gerada por quilo de carne. Uma tarefa impossível, dada a extensão do problema.

Queimando o planeta

A contribuição da pecuária para o aquecimento global é muito considerável. A criação de animais contribui com 9% das emissões de dióxido de carbono (CO2) (através de alterações no uso da terra), 37% das emissões de metano (CH4) (resultante da digestão dos ruminantes) e 65% das emissões de óxido nitroso (N2O) (devido ao estrume produzido). Ao todo, 18% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) antropogénicas são atribuíveis à pecuária, uma fatia que supera a dos transportes (14%)2.

Se as projecções da FAO relativamente à evolução de produtos de origem animal se verificarem, teríamos de comer apenas 25 kg de carne e 53 l de leite por ano em 2050 para manter as emissões de GEE no seu corrente nível. Isto equivale a 1/2 kg de carne e 1 l de leite por semana por pessoa. Estamos a falar em comer um hamburguer ou duas salsichas de dois em dois dias, um nível de consumo comparável apenas ao dos países menos desenvolvidos3.

Visto de outra forma, produzir 1 kg de carne de vaca emite tantos GEE como conduzir um carro de cidade por 250 km e consome suficiente energia para acender uma lâmpada de 100w durante 20 dias. A estimativa é de um estudo japonês, publicado na New Scientist4, e não inclui as emissões ligadas à comercialização e transporte da carne.

Outro estudo, utilizando dados dos EUA, coloca a diferença de emissões de GEE entre uma dieta baseada em produtos animais e uma dieta vegetariana em 1,5 toneladas de CO2-equivalente5. A redução na pegada de carbono individual é comparável à que uma pessoa consegue trocando um carro desportivo utilitário (o SUV) por um híbrido.

O impacto da produção de carne nas alterações climáticas pode ainda ver-se pelo consumo de combustíveis fósseis. Para produzir uma caloria de proteína de soja necessitamos de duas calorias de combustíveis fósseis, enquanto a produção de uma caloria de proteína de milho requer três calorias de combustíveis fósseis. A produção de uma caloria de proteína de carne, por outro lado, exige a utilização de 54 calorias de combustíveis fósseis6.

A pecuária é ainda responsável por 64% das emissões de amónia antropogénicas, um gás que contribui para a formação de chuvas ácidas7.

Tornando florestas em desertos

O sector da pecuária é, de longe, o maior utilizador de terra, ocupando cerca de 70% da superfície agrícola e 30% de toda a superfície da terra com pastagens e plantações destinadas à produção de rações. A sua constante expansão implica assim a ocupação de áreas onde a agricultura ainda não chegou, tais como florestas e outras áreas naturais classificadas como “terras degradadas”. Já em 1981 o ambientalista Norman Myers alertava para a destruição de vastas áreas de florestas tropicais para a extensão das pastagens para animais, cuja carne era exportada para os EUA, criando o conceito “a ligação do hamburguer”8. Actualmente, a produção de soja para rações é a principal causa para a desflorestação da Amazónia9.

É quase impossível saber qual a contribuição da pecuária para a erosão dos solos a nível mundial, mas os dados apresentados em relação aos EUA, onde contribui para 50%9 da erosão, são um indicador.

Tornando rios em esgotos

A pecuária contribui significativamente para o esgotamento da água potável, já que contribui com 8% do consumo global de água humano10 e o consumo de água para produção de carne de vaca excede o consumo de água para produção de cereais em pelo menos 50 vezes. Por outro lado, este sector é provavelmente o maior contribuidor para a poluição da água, na medida em que está na origem de problemas de eutrofização, zonas mortas nos oceanos e degradação de corais. Para isto contribuem as enormes descargas diárias de excrementos, químicos de curtumes, fertilizantes e pesticidas químicos e sedimentos de pastagens erodidas. A adicionar a tudo isto temos problemas de saúde em pessoas que consomem águas poluídas pela pecuária com antibióticos e hormonas.

agua

A título de exemplo, nos EUA, a pecuária é responsável por 37% dos pesticidas, 50% dos antibióticos e 33% do nitrogénio e fósforo que vão parar às águas11. A realidade portuguesa não é muito diferente. Embora não haja dados quantitativos, sabemos já que, os animais criados para a produção pecuária poluem mais que todos os habitantes e que a pecuária é a principal causa para a poluição fluvial12.

Destruindo ecossistemas

Actualmente, 20% dos animais que habitam o planeta foram criados pelo sector da pecuária13. A criação intensiva de animais coloca em risco a sustentabilidade de ecossistemas essenciais para a vida selvagem, estando já 30% destes ecossistemas ocupados pela pecuária14. Das 35 áreas no planeta identificadas como “hotspots” de biodiversidade pela Conservation International, 23 são afectadas negativamente pela pecuária15.

Provavelmente, a alimentação baseada em carne e peixe será o maior factor para a perda de biodiversidade. O impacto na biodiversidade pode ver-se directamente pela difusão de espécies invasoras em zonas sensíveis pela pecuária e pela aquacultura ou pela sobrepesca mas também temos de considerar o impacto indirecto na biodiversidade da produção e captura de animais para alimentação humana pela sua contribuição para a desflorestação, a degradação dos solos, a poluição, as alterações climáticas, e a sedimentação de áreas costeiras.

Comprometendo a segurança alimentar

proteinaA esta hora, o leitor mais céptico estará a pensar: e então a agricultura, não contribui também para todos estes problemas ambientais? A resposta é sim, mas não na mesma medida, pelo simples motivo de que a produção de carne utiliza muito mais terra que a produção de vegetais e cereais para alimentação humana.

Podemos analisar este problema com base nos dados relativos à eficiência na produção de alimentos. Na mesma extensão de terreno, podemos obter mais de 175 quilos de proteínas cultivando soja ou menos de 25 quilos de proteínas cultivando rações para animais16. Em termos de rácio entre kcal utilizadas na produção e kcal presentes no alimento final, o cultivo de soja é 23 vezes mais produtivo que a produção de carne de aves17. Uma análise dos dois gráficos permite-nos então traçar uma clara fronteira entre a produção de carne e a produção de vegetais e cereais para alimentação humana.

Neste momento, cerca de 1/3 a 1/2 dos alimentos produzidos de origem vegetal destinam-se à alimentação animal, o que constitui um enorme desperdício de recursos. Apesar da sua elevada produtividade, 90% do cultivo de soja destina-se à produção de rações18. O cultivo de cereais para alimentação de animais oferece também um terreno fértil para a proliferação de organismos geneticamente modificados: a grande maioria dos 100 milhões de acres cultivados com OGM no mundo destinam-se à alimentação de animais19.

eficiencia

Ecologismo e vegetarianismo de mãos dadas

Por tudo o que foi exposto, parece óbvia a necessidade de discutir seriamente o vegetarianismo como opção alimentar ecológica. No entanto, apesar de alguns sinais positivos20, este ainda é um tema tabu para muitos ambientalistas.

O estado de negação relativamente ao impacto ambiental da produção de carne apenas se pode explicar por factores culturais. Somos educados desde novos a comer carne e ainda é muito difícil para uma boa parte da população pensar em mudar a sua dieta. Muitos optam por trocar a carne por peixe, embora isso leve a problemas ambientais tão ou mais graves que o consumo de carne21.

Poderíamos, é claro, pensar em mudar a forma de produzir carne, de forma a tornar o processo produtivo mais sustentável. Mas a mudança da produção intensiva para a produção extensiva, embora leve a uma redução da poluição, conduz à degradação de vastas áreas de terra. Para mais, a carne biológica é e será sempre, por limitações físicas óbvias, muito mais cara que a carne de produção intensiva, estando o seu consumo regular vedado à maioria da população. Não há uma saída fácil para este dilema.

Mas também o lado social da produção de carne deve ser equacionado. É usual as agências ditas de “desenvolvimento” incentivarem a expansão da pecuária em países sub-desenvolvidos como forma de aumentar o nível de vida das populações. Mas a promessa de melhores condições de vida nunca passa do papel. Vejamos o exemplo da Índia. O consumo de frango aumentou de 31 milhões de aves em 81 para 800 milhões em 2000. O impacto na fome foi nulo, não foram criadas oportunidades de emprego porque a indústria em causa é capital-intensiva e os mais pobres foram prejudicados porque o cereal barato é desviado para alimentação de aves.

A carne não é tão barata como nos parece na hora da sua aquisição. Nas palavras do Professor Jules Pretty, da Universidade de Essex: “pagamos na realidade três vezes pela nossa comida – uma vez na loja, uma segunda vez através dos impostos utilizados para subsidiar os agricultores ou sustentar o desenvolvimento agrícola e uma terceira vez ao tratar os efeitos secundários no ambiente e na saúde22. Por outras palavras, se pagássemos o verdadeiro custo da carne, apenas os mais ricos poderiam dar-se ao luxo de não ter uma dieta vegetariana.

Temos ainda um longo caminho a percorrer, num país onde o consumo de carne excede em 29 kg por ano a média mundial, de 40 kg e onde 46% da superfície agrícola se encontra ocupada por pastagens23. Mas a questão é: quando começarão os ecologistas a enveredar seriamente pela defesa do vegetarianismo?

1 – Steinfeld H et al.(2006) . Livestock’s long shadow, Roma: Food and Agriculture Organisation of the United Nations.

2 – idem

3 – Garnett, Tara (2008) Cooking up a storm – Food, greenhouse gas emissions and our changing climate. Surrey: Food Climate Research Network, Centre for Environmental Strategy, University of Surrey

4 – Em http://www.newscientist.com/article/mg19526134.500

5 – Medida que se usa para agregar os diversos GEE.

6 – Robbins, John (2001) The Food Revolution, Conari Press.

7 – Ver nota 1.

8 – Myers, N. 1981. “The Hamburger Connection: How Central America’s Forests Became North America’s Hamburgers.” Ambio, 10: 3-8.

9 – Ver “Vai um rodízio? A Amazónia paga”.

10 – Ver nota 1

11 – idem

12 – idem

13 – idem

14 – idem

15 – idem

16 – Compassion in World Farming (2004) Reduzir o consumo de carne: uma reforma urgente.

17 – Eshel, Gidon; Martin, Pamela A. (2006) Diet, Energy, and Global Warming, Earth Interactions, 10:9, pp 1-17.

18 – Robert Goodland, Livestock sector environmental assessment, in M. Hardtlein, M. Kaltschmitt, M. Lewandowski and H Wurl (eds.) (1999) Sustainability in agriculture: agriculture at the crossroads between ecology, economics and social science, Berlim: German Federal Environment Foundation Press.

19 – John Robbins (2001) The Food Revolution, Conari Press

20 – Por exemplo, o ecologista Chris Goodall defende o veganismo como uma das coisas mais eficazes que podemos fazer para reduzir a nossa pegada de carbono individual.

21 – Ver “Pregando aos peixes”.

22 – Jules Pretty (2002) Agri-Culture, Earthscan.

23 – DECO, Uma só terra para explorar, Proteste 287, janeiro 2008

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One Comment leave one →
  1. 25/11/2011 21:45

    penso!..logo sou vegano…por ética, respeito a natureza e por amor!

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