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Quantos de nós viveremos sem terra

01/11/2008

Paula Tavares, Ecoblogue, 1 de novembro de 2008

Na ligação à terra, às plantas, aos outros bichos, à vida, do sentido mais prático e funcional, de trabalho e sobrevivência… até ao da memória do contacto na infância, mais emocional… no sentido que se der a esta, será possível imaginar a vida daqui para a frente em cidades desprovidas de um acesso plural à terra? Esta reflexão é a primeira parte de minha próxima contribuição quinzenal.

Trabalho sempre mais quando me preparo para partir, mesmo que seja por pouco tempo. Preciso de uma razão para me colocar em ordem. É como um lavar da “casa” para quem vier a seguir, sabendo bem que no fundo sou eu que volto, mas nunca totalmente igual.

É Outono. Saio do aeroporto que é rodeado de campos, mas ativos, com gente. Olha-se da estrada e vê-se as marcas da “mão” humana. A dividir os campos fazem fila, árvores de cores diversas. Ultimamente começo a gostar cada vez mais do Outono. É preciso rodearmo-nos de árvores destas para se amar o Outono… penso e repenso. É a dádiva de estar mais a norte, quase única suponho. Passo uma ponte sobre o Reno e percebo…já tinha entrado na cidade sem perceber. Uma cidade feita de cidades com terra.

Na praça dos produtores locais, brilham legumes diferentes dos que conheço. Não consigo a tradução. Compro-os para depois os tentar identificar. Esta gente acordou mais cedo para isto do “consumir local”. Hei-de ver o que têm nas livrarias. Espero que não seja como no museu, tudo na língua mãe.

Várias mulheres de véu apertado parecem submetidas a uma mesma identidade e contrastam com os cabelos louros, brancos e grisalhos de velhinhas compostas. Olhares e conversas que não se misturam… reparo. Esta é uma Europa mais educada mas nem por isso mais inter-cultural. Os imigrantes formam como que ilhas não só nos locais onde vivem, mas também enquanto convivem ou se deslocam no seu quotidiano.

Eu própria não consigo tirar o meu tipo de véu, no sentido em que estou longe do que aqui é local e muito melhor que na “minha” terra. Lá as cidades desproveram-se de tudo o que é rural e sei que por isso se poderão aniquilar a si mesmas. Invejo-os porque também queria as “minhas” cidades assim, nunca desligadas da terra que lhes deu origem. Por outro lado, invejo-os por sentir que a sua ruralidade é esclarecida, educada e nunca um sinal de isolamento.

Se por um lado as cidades nos deram a oportunidade de globalizarmos hábitos, no sentido de uma heterogeneidade fabulosa, por outro verifica-se que muitas cidades confluíram para uma homogeneidade no sentido do afastamento da sua herança rural. Esta dualidade entre tradição e o que é novo parece oposta, mas na verdade não o é, pois várias cidades pela Europa mantiveram ou recuperaram essa sua ligação à terra, mesmo com um crescimento populacional acima da média.

Na verdade parece-me totalmente possível empreender ainda um esforço no sentido de recuperarmos a ligação da cidade ao meio rural, mesmo onde esta foi perdida. E de a enriquecermos não no sentido do encontro estéril com a surda tradição, mas com os múltiplos saberes que só a fusão dos povos pode providenciar.

Falhei. Mesmo atenta falhei. Consumi local, mas em demasia. Deixei de ver arte para trazer mais umas prendas. Mas fiquei mais preenchida na minha pequenez de querer partilhar tudo ao máximo. Como se isso me agarrasse mais à vida… fazê-lo com os outros, mesmo que à posteriori. Bem sei que acabaremos sempre demasiado sós se conseguirmos viver o suficiente. E na verdade desde sempre viajamos connosco mesmos.

A partilha, as referências, são a fuga a isso mesmo, a assustadora solidão do indivíduo enquanto viajante na sua própria vida. As referências não se tratam apenas do hábito, do gosto viciado, mas também de um sentido de identificação. Mas pergunto-me porque nos identificamos com os pormenores das nossas diferenças, se temos algo muito mais valioso em comum? Se há referência que pode assemelhar todos os povos é a sua ligação, mesmo que ancestral, à terra. Mas isso, por mais incrível que pareça, nem esta Europa já descobriu. Os produtores locais transpiravam ali nas suas bancas o privilégio das suas vidas e, naquela praça era estranhamente exclusiva a cor clara da sua pele.

Na tentativa de adaptação ao “aquecimento global” todos os saberes serão poucos. Os ciclos biológicos serão perturbados, os ecossistemas procurarão novos “equilíbrios” porque na sua génese serão sempre dinâmicos. As cidades sem terra não poderão manter-se mesmo com densidades baixas, pois o abastecimento à distância poderá estar comprometido por uma crise energética. Haverão muitos refugiados ambientais, porque em muitas zonas será impossível usar a terra e como tal, sobreviver. E com tudo isto o ser humano… terá novas oportunidades de aprender a se inter-relacionar.

Esta é uma visão claramente muito otimista!

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