Skip to content

Os limites da eficácia energética

29/10/2008

Robert Bryce, Ecoblogue, 27 de outubro de 2008

Se todos nós começássemos a dirigir carros híbridos, consumiríamos mais energia do que nunca

Desde 1859, quando o Coronel Drake descobriu petróleo na Pensilvânia, até 1973, os EUA foram o principal actor no negócio da energia global. Durante a maior parte desse período, a América era o principal produtor e consumidor de petróleo e gás no planeta.

Esta dominância estendeu-se à tecnologia, às finanças, aos transportes e à refinaria. Quando as reservas de petróleo foram desenvolvidas e colocadas no mercado, os EUA não tinham nenhum sério rival.

Esses dias já passaram.

Neste momento, empresas nacionais, como a Aramco saudita, a Gazprom russa ou a PDVSA venezuelana controlam cerca de 77% das reservas de petróleo conhecidas. Ao mesmo tempo, a procura crescente da China, da Índia e de outros países em desenvolvimento está a permitir que as empresas petrolíferas nacionais alterem o seu padrão de vendas. Em vez de procurar exportar o seu produto para consumidores ocidentais, estão a olhar para leste.

Foi em Abril de 1973 que a quota sobre a importação de petróleo nos EUA acabou. Seis meses depois, começava uma das maiores crises energéticas da história, no seguimento do embargo sobre o petróleo árabe. A era da energia abundante e barata havia terminado.

Quase todas as discussões sobre a independência energética e o aquecimento global incluem apelos a uma maior eficiência energética. O argumento é simples: se usássemos a energia de forma mais eficiente, o consumo descerá e tudo será melhor. Não há dúvida de que a eficiência é uma coisa maravilhosa. Permite que os consumidores extraiam mais trabalho de um quilo de carvão, de um litro de gasolina, de uma turbina eólica ou de uma célula fotovoltaica. E quanto mais eficiente se torna um processo, maiores são os lucros. Um carro que atinge 30 milhas por galão pode dar o mesmo valor que um que atinge 15 milhas por galão – e consegue fazê-lo a metade do custo do combustível. Uma lâmpada fluorescente compacta que consome 18 watts e dá a mesma luz que uma lâmpada incandescente consumindo 60 watts faz todo o sentido do ponto de vista económico.

Mas a eficiência por si só não nos dará a salvação para a crise energética. A prova está na análise de outras inovações tecnológicas. Nos primeiros dias do computador pessoal, afirmava-se que os escritórios iriam deixar de usar papel. Isso não aconteceu. Em vez disso, novas indústrias nasceram, resultando num cada vez maior consumo de papel. Da mesma forma, previsões de que uma maior eficiência levará a um menor consumo de energia falharam completamente.

Durante décadas, o guru da energia Amory Lovins tem declarado que um aumento da eficiência reduzirá a procura de energia. Por exemplo, em 1984, Lovins afirmou à Business Week que “veremos a procura de energia a baixar no médio e longo prazo. As perspectivas a longo prazo para vender mais electricidade são fracas. Nunca teremos, suspeitamos, um preço suficientemente elevado para justificar a construção de mais centrais termoeléctricas centralizadas. Essa era acabou.”

Mas não acabou.

O consumo de electricidade nos EUA aumentou cerca de 66% desde que Lovins fez esta declaração. Para satisfazer essa procura, as empresas do sector energético construíram dezenas de centrais termoeléctricas. Na realidade, Lovins tem-se enganado sistematicamente nas suas previsões. Em 1976, previu que a energia renovável iria fornecer 30% da procura de electricidade nos EUA em 2000. A figura real está mais próxima de 1 a 2%. E, no entanto, “inexplicavelmente”, nota Vaclav Smil, da University of Manitoba, “Lovins mantém a sua aura de guru independentemente de quanto erra.”

Tal como Lovins previu erradamente que a eficiência reduziria a procura de energia, existe uma crença generalizada de que um aumento da eficiência dos automóveis reduzirá o consumo de combustíveis. Mas a História mostra que, apesar dos aumentos na eficiência, o consumo de energia não pára de aumentar.

Os Prius da Toyota e outros carros híbridos são porreiros. Mas são, como um analista da indústria do petróleo afirmava, “um penso rápido num amputado”. Mesmo aumentos dramáticos na eficiência dos automóveis apenas reduzirão a taxa de crescimento do consumo de petróleo.

As limitações da eficiência energética foram tornadas claras pelo livro de 2005 de Peter Huber e Mark Mills. Os autores concluem que a eficiência energética não baixa a procura, aumenta-a. Explicam que o objectivo da eficiência energética tem sido consensual na política dos EUA desde os anos 70. No entanto, apesar de a eficiência ter aumentado dramaticamente desde então, a procura tem crescido. Este excerto explica porque a procura de energia irá continuar a aumentar:

A eficiência pode baixar a procura no curto prazo, para a tarefa específica que temos em mãos. Mas no longo prazo o impacto é o oposto. Quando as centrais termoeléctricas, os motores a jacto, os motores de automóveis, as lâmpadas, os motores eléctricos, os ar condicionados e os computadores eram muito menos eficiente que são hoje, consumiam muito menos energia. À medida que se tornaram mais eficientes, as vendas aumentaram, logo o consumo global aumentou. Por unidade de energia utilizada, os EUA produzem mais do dobro do PIB hoje que produzia em 1950, mas o consumo de energia aumentou para o triplo no mesmo período. A eficiência não baixa a procura porque permite que mais pessoas façam mais coisas, de forma mais rápida – o que anula os ganhos de eficiência.

Huber and Mills não foram os primeiros a notar neste paradoxo. Em 1865, o economista britânico, William Stanley Jevons, publicou aquele que se tornaria o seu mais famoso livro “A questão do carvão”. O livro de Jevons marcou o início da economia da energia. Após estudar os padrões de consumo no Reino Unido e assumindo (erradamente) que os depósitos de carvão seriam esgotados em breve, Jevons conclui que “é uma consfusão de ideias supor que o uso económico de combustível equivale a uma redução no consumo. O contrário é verdade”. Esta observação ficou conhecida como o Paradoxo de Jevons.

Em 2003, Vaclav Smil publicou um livro magnífico, “Energy at the Crossroads”, que dá aos leitores uma visão exaustiva da história do consumo de energia, dos problemas com a previsão do uso de energia e os desafios que enfrenta a transição para o fim do uso de combustíveis fósseis. No que toca à eficiência energética, Smil – como Huber, Mills, e Jevons – conclui que a história está “repleta de exemplos demonstrando que substanciais ganhos na eficiência da conversão (ou uso de materiais) estimulam aumentos no uso de combustíveis ou de electricidade (ou de materiais) bem superiores às poupanças alcançadas com estas inovações.”

Nada disto implica que a eficiência é má. A eficiência é fantástica. É uma parte essencial da nossa economia em evolução. Faz sentido conseguir mais trabalho de cada unidade de energia. A eficiência energética conserva capital. É boa para o ambiente. É boa para ricos e pobres. Ajuda a reduzir o impacto da volatilidade de preços da energia e possíveis choques petrolíferos para os consumidores. Em 2002, dois economistas do Congressional Research Service, Marc Labonte e Gail Makinen, escreveram um relatório sobre este assunto que conclui que a eficiênicia “reduziu, e continuará a reduzir, os efeitos destes choques na nossa economia.”

Mas enquanto a eficiência é louvável, por si só não pode levar a uma redução no consumo de energia ou à independência energética.

Robert Bryce lançou recentemente o livro “Gusher of Lies” e é o editor da revista Energy Tribune.

Traduzido e adaptado da Alternet.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: