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O colapso da bolsa é insignificante comparado com o colapso da natureza

16/10/2008

George Monbiot, The Guardian, 15 de outubro de 2008

A crise financeira pelo menos nos oferece uma oportunidade para repensar a nossa catastrófica trajetória ecológica.

Isto não é nada. Bem, nada em comparação com o que está para vir. Esta crise financeira pela qual nós temos agora que pagar tão pesadamente prefigura um colapso real quando a Humanidade choca com os seus limites ecológicos. Quando olhamos para os estrondosos dígitos financeiros, um conjunto diferente de números passam por nós. Na sexta-feira, Pavan Sukhdev, o economista do Deutsche Bank que lidera um estudo europeu sobre os ecossistemas, relata que estamos a perder capital natural num valor entre 2 e 5 trilhões de dólares todos os anos apenas como resultado da desflorestação. As perdas incorridas até ao momento pelo sector financeiro somam entre 1 a 1,5 trilhões de dólares. Sukhdev chegou a este número estimando o valor dos serviços – tais como reter carbono e providenciar água fresca – que as florestas realizam, e calculando o custo quer de substituí-los quer de viver sem eles. O desmoronamento do crédito é insignificante quando comparado com o colapso da natureza.

As duas crises têm a mesma causa. Em ambos os casos, aqueles que exploram os recursos exigiram taxas impossíveis de retorno e criaram dívidas que nunca poderão ser pagas. Em ambos os casos nós negamos as consequências prováveis. Costumava acreditar que a negação colectiva era exclusiva das alterações climáticas.Agora penso que é a primeira resposta a todas as alterações ameaçadoras. Gordon Brown, por exemplo, esteve tanto na negação acerca das realidades financeiras como qualquer negociador de dívidas tóxicas. Em Junho do ano passado, durante o seu discurso na Mansion House, ele vangloriou o fato de 40% das equities estrangeiras mundiais serem negociadas cá. O sucesso do setor financeiro aconteceu, disse, parcialmente porque o governo adoptou “uma abordagem regulatória baseada no risco”. Na mesma sala, três anos antes, prometeu que “orçamento após orçamento, queroque façamos ainda mais para encorajar os que tomam os riscos”. Pode alguém, sobrevivendo a esta confusão, agora duvidar do valor do princípio de precaução? Ecologia e economia são ambos derivados da palavra grega oikos – uma casa ou habitação. A nossa sobrevivência depende da gestão racional desta casa: o espaço em que vivemos pode ser sustentado. As regras são as mesmas em ambos os casos. Se extraímos recursos a um ritmo acima do nível de restituição, o nosso stock colapsa. Este é outro nome que nos recorda a ligação. O dicionário Oxford English dá 69 definições para “stock“. Quando significa um fundo ou armazenamento, a palavra evoca o tronco – ou stock – de uma árvore, “dos quais os ganhos são uma excrescência”. Os colapsos ocorrem quando podamos a árvore de forma tão severa que ela morre. Ecologia é o stock do qual toda a riqueza cresce.

As duas crises alimentam-se uma à outra. Como resultado do seu colapso financeiro, a Islândia está a ponderar aderir à União Europeia, o que significa ceder os seus bancos de pesca à política comum de pescas. Já o Primeiro-Ministro, Geir Haarde, sugeriu que os seus concidadãos se concentrem em explorar o oceano. O desastre económico causará um desastre ecológico.

Normalmente é ao contrário. No livro Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed, Jared Diamond mostra como a crise ecológica é frequentemente o prelúdio da catástrofe social. O exemplo óbvio é a Ilha da Páscoa, onde a sociedade se desintegrou pouco depois da população atingir o seu número máximo histórico, as últimas árvores foram cortadas e a construção de monumentos de pedra esmoreceu. Os chefes da ilha competiram para erigir estátuas cada vez maiores. Estas necessitavam de madeira e corda (feita de casca) para transporte, e comida extra para os trabalhadores. Quando desapareceram as árvores e o solo dos quais os ilhéus dependiam, a população colapsou e os sobreviventes viraram-se para o canibalismo. Diamond questiona o que terá pensado o habitante da Ilha da Páscoa que cortou a última palmeira. “Como os madeireiros modernos, terá gritado “Emprego, árvores não!” Ou: “A tecnologia salvará os nossos problemas, nunca temam, nós encontraremos um substituto para a madeira.” Ou: “Não temos provas de que não há palmeiras noutro local na Ilha de Páscoa… a vossa proibição do corte é prematura e causado pelo factor medo”.

O colapso ecológico, demonstra Diamond, é tão provável que resulte do sucesso económico como do falhanço económico. Os Maia da América Central, por exemplo, estavam entre os povos mais avançados e com mais sucesso do seu tempo. Mas uma combinação de crescimento populacional, projectos de construção extravagantes e uma má gestão do solo dizimaram entre 90 a 99% da população. O colapso Maya foi acelerado pela “competição ente reis e nobres que levaram a uma ênfase crónica na guerra e na erecção de momentos em vez de resolver problemas fundamentais”. (Algo disto soa familiar?) Novamente, os maiores monumentos foram erigidos precisamente antes do ecossistema ter falido. Novamente, esta extravagância foi parcialmente responsável pelo colapso: as árvores foram usadas para fazer gesso com o qual decoravam os seus templos. O gesso tornou-se mais denso à medida que os reis procuravam superar o consumo conspícuo dos restantes.

Aqui estão algumas das razões pelas quais as pessoas falham na prevenção de colapsos ecológicos. Os seus recursos a início aparentam ser inesgotáveis; uma tendência de longo termo de deplecção é escondida por flutuações a curto-prazo; um pequeno número de pessoas poderosas alcançam os seus interesses ao exigirem os de todos os outros; lucros de curto-prazo comprometem a sobrevivência a longo-prazo. O mesmo, em todos os casos, pode ser dito do colapso dos sistemas financeiros. É assim que os humanos estão destinados a comportarem-se? Se nós não conseguimos agir até aos stocks – de ambos os tipos – começarem a deslizar para o esquecimento, estamos exaustos.

Mas um dos benefícios da modernidade é a nossa capacidade para detectar tendências e prever resultados. Se o peixe num ecossistema empobrecido cresce 5% por ano e a captura cresce 10% por ano, a pescaria colapsará. Se a economia global continua a crescer a 3% por ano (ou 1.700% por século), também irá cair.

Não irei sugerir, como no ano passado alguns dos que partilham um nome comigo nestas páginas fizeram, que devemos dar as boas-vindas a uma recessão. Mas a crise financeira dá-nos a oportunidade para repensar esta trajectória; uma oportunidade que não está disponível durante períodos de sucesso económico. Os governos que reestruturam as suas economias deviam ler o livro de Herman Daly Steady-State Economics.

Como de costume não deixei espaço suficiente para discutir isto, portanto os detalhes terão que esperar por outra coluna. Ou podem ler o sumário publicado pela Sustainable Development Commission (todas as referências estão no meu site). Mas aquilo que Daly sugere é que as nações que já são ricas devem substituir o crescimento – “mais da mesma coisa” – pelo desenvolvimento – “a mesma quantidade de coisas melhores”. Uma economia steady-state tem um stock de capital constante que é mantido por uma taxa de produção não superior do que aquela que o ecossistema pode absorver. O uso de recursos está nivelado e o direito a explorá-los é leiloado. A pobreza é combatida através da distribuição de riqueza. Os bancos podem emprestar apenas a quantidade de dinheiro que possuem.

Em alternativa, podemos persistir no pensamento mágico cujos resultados acabaram de provocar o actual desmoronamento. A crise financeira mostra o que acontece quando tentamos que os factos sirvam os nossos desejos. Agora temos que aprender a viver no mundo real.

Veja o site do autor:monbiot.com. Tradução de Nelson Peralta.

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