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O “carvão limpo” é uma mentira

01/10/2008

Ricardo Coelho, Ecoblogue, 29 de setembro de 2008

A ideia de sequestrar o carbono emitido pela queima de combustíveis fósseis já havia sido apresentada nos anos 70 mas só agora foi colocada na agenda dos países industrializados. Mas o que parece à partida ser uma forma de “limpar” o sector energético não passa de uma forma de prolongar a nossa dependência em relação ao carvão.

O que desce, sobe

Depósitos de carbono surgem naturalmente na natureza. A tecnologia para capturar o dióxido de carbono (CO2) emitido por centrais a carvão, transportá-lo e depositá-lo em reservatórios subterrâneos (nomeadamente formações salinas ou de carvão e poços de petróleo ou de gás natural abandonados) já foi desenvolvida. Então porque não investir na captura e sequestro de carbono?

A Greenpeace dá-nos cinco motivos de peso para rejeitar esta perigosa tecnologia, no seu relatório “False Hope”1. O primeiro é de ordem prática e tem a ver com a urgência de encontrar soluções para as alterações climáticas. A tecnologia de sequestro e armazenamento de carbono apenas estará disponível, na melhor das perspectivas, em 2030.

A disponibilidade da tecnologia não depende apenas de critérios de engenharia, contudo. Para que seja viável comercialmente, será necessário desenvolver incentivos fiscais (ou seja, será a comunidade a suportar o seu custo). Por outro lado, há limitações técnicas: segundo o IPCC, até 70% das emissões de CO2 resultantes da queima de combustíveis fósseis podem não ser capturáveis.

O segundo grande problema da captura e armazenamento de carbono é o enorme gasto de energia que comporta. Entre 10% e 40% da energia gerada por uma central termo-eléctrica terá de ser gasta com a captura de carbono. Como resultado, mais centrais terão de ser construídas e mais carvão terá de ser extraído, com todos os impactos ambientais negativos que se seguem.

O terceiro problema a resolver é o do armazenamento do carbono. Um projecto de armazenamento de carbono no subsolo foi implementado na plataforma de gás natural de Sleipner, na Noruega, onde o CO2 libertado é injectado de novo para o subsolo há 12 anos. Mas nada nos garante que a expansão deste projecto para todo o mundo será bem sucedida. Mesmo que seja possível encontrar depósitos em quantidade suficiente, ninguém pode garantir que não haverá fugas num futuro próximo. O desafio é gigantesco: enquanto a Agência Internacional de Energia estima em 6000 o número de projectos de armazenamento de carbono necessários até 2050, presentemente apenas 3 se encontram operacionais. Um investimento deste tipo teria também de ser acompanhado de um enorme esforço de monitorização, já que uma fuga de apenas 1% do carbono armazenado poderia ser suficiente para influenciar o clima do planeta.

O quarto problema é mais complicado de resolver e relaciona-se com o custo. O IPCC estima o custo do sequestro de carbono em 15 a 75 dólares por tonelada, enquanto que o governo dos EUA estima um aumento na factura de electricidade em 21 a 91%. Tudo isto leva a que o custo de construir uma central a carvão possa duplicar. A este custo temos ainda de adicionar a enorme despesa que implica construir uma rede de pipelines para transportar o carbono desde as centrais a carvão até ao local onde será armazenado.

Finalmente, há que considerar todos os riscos envolvidos com o sequestro e armazenamento de carbono. Os riscos ambientais de uma fuga não podem ser desprezados, não só por causa das alterações do clima mas também porque a libertação de CO2 numa zona habitada pode matar milhares de pessoas, como o demonstram vários fenómenos deste tipo ligados à actividade vulcânica, além de resultar na morte de espécies animais e vegetais. Será necessário, antes sequer de pensar em implementar esta tecnologia, definir com rigor os direitos e deveres de todas as partes envolvidas, de forma a sabermos quem é responsável pelo carbono armazenado.

Uma promessa não cumprida

Em 2003, o governo dos EUA anunciava a construção da primeira central a carvão com captura de carbono, prometendo energia com emissões negligenciáveis. Enormes benefícios fiscais e subsídios foram atribuídos e foi aprovada uma lei que isentava a FutureGen de quaisquer responsabilidades no caso de existir uma fuga de carbono. Mas no início de 2008, após sucessivos adiamentos, o projecto acabou por ser cancelado. A justificação foi a do enorme deslize orçamental: o investimento ainda não tinha visto a luz do dia e o custo já tinha aumentado para o dobro.

O colapso da FutureGen não dissuadiu os governos, no entanto, dada a sua dependência do lobby do carvão. Um pouco por todo o mundo, vão surgindo novas centrais a carvão “preparadas para a captura”, ou seja, onde podem ser colocados eventualmente filtros para capturar o carbono. Em nome de uma tecnologia que pode nunca vir a ser implementada, o governo trabalhista do Reino Unido aprovou a construção de uma nova central a carvão em Kingsnorth. A nova central emitirá tanto CO2 por ano como o Ghana, sem que exista sequestro e armazenamento de carbono.

Os governos comprometidos com os interesses económicos do costume estão tão obcecados com tentar encontrar uma saída para o carvão que o investimento em energias renováveis, em microgeração, em medidas de conservação de energia e em meios de armazenamento de energia continua a ser relegado para segundo plano. Até ao dia em que nós os obriguemos a mudar de prioridades.

1 – Ver False Hope: Why carbon capture and storange won’t save the climate.

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