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Dia Mundial Sem Carro – no meio dos canaviais!

25/09/2008

 

Passei o Dia Mundial Sem carro no meio dos canaviais, ou seja, bem no centro da maior região canavieira do estado de São Paulo.

Boa parte do etanol produzido no Brasil é oriundo do estado de São Paulo. Os canaviais já expulsaram boa parte das plantações de laranja e outras frutas, já mandaram os bois para outras plagas. Os agro-boys do noroeste paulista já vêem bois apenas quando vão ao Rodeio de Barretos. São peões sem-boi, sem-cavalo. A atual geração em torno dos 20 anos de idade só viu cana e mais cana, canaviais a perder de vista. São caipiras sem campo, não sabendo mais diferenciar um boi nelore de uma vaca holandesa. São urbanos ao extremo, parecendo-se muito mais com os alienados jovens moradores dos condomínios fechados no entorno da cidade de São Paulo, do que com a saudosa imagem que temos dos antigos moradores do interior. Não há mais frutas a colher nos quintais das casas de fazenda. Não há mais pomares. Não há mais o leite recém ordenhado. Fruta se compra no supermercado, leite é em caixinha, boi é só o Boi Bandido, antiga estrela dos rodeios.

O Noroeste Paulista vive do etanol. Os contratos de exportação são fechados com antecipação de até quatro anos. As usinas produtoras de álcool estão por toda parte. Apenas nas cidades vizinhas mais próximas a Catanduva, há seis usinas. Boa parte delas já sob controle estrangeiro. Todas elas explorando a mão de obra semi-escrava dos bóias-frias. Todas elas escondendo os casos de trabalhadores que morrem de pura e simples exaustão.

Formou-se uma classe média parasitária, que vive do arrendamento das terras dos antigos sítios para as Usinas plantarem cana. Este arrendamento cada vez fornece menos dinheiro aos proprietários das terras arrendadas. Atualmente, rende pouco mais de R$ 200,00 (duzentos reais) por alqueire. Então, há um progressivo empobrecimento dos antigos proprietários de terra, proprietários esses que não poderão mais desvincular-se desta relação jurídica e negocial: essa geração não domina mais o conhecimento necessário para explorar adequadamente as terras de sua propriedade, e a plantação de cana arrasa com a terra: são destruídos os pomares e construções antigos, a terra fica nua, sendo apenas uma longa extensão. E é uma terra extenuada: para se plantar algo, é preciso aguardar uns 3 ou 4 anos após o encerramento da platanção de cana.

Assim, encontra-se o Noroeste Paulista escravizado à cana, ao etanol, e à indústria do automóvel. Não e de espantar, portanto, que o Dia Mundial Sem Carros, lá, pareça apenas no noticiário: notícias das esquisiteces dos moradores das cidades grandes do mundo.

O desconhecimento é geral. Um instrutor de auto-escola de Catanduva me diz, em pleno dia 22 de setembro, que o carro nunca vai acabar. Afinal, o Brasil achou mais petróleo e tem o álcool, para quando o petróleo acabar. O funcionário de uma Usina repete mais ou menos a mesma opinião. Uma estudante universitária diz que acha ótimo que estejam sendo vendidos mais carros, pois eles são consumidores de álcool e isto permite seu pai arrendar as terras da família para as Usinas e não ter que trabalhar: pois, afinal, o emprego está raro. Alguém se condói um pouco das condições de vida dos cortadores de cana, outro assever aque isso acabará com a crescente implantação das colheitadeiras, e os cortadores poderão voltar para o local de onde vieram: o Nordeste do Brasil. Afinal, “essa gente pobre e analfabeta só traz problemas!”.

Com raríssimas (raríssimas mesmo) exceções, todos ignoram o fim próximo do ciclo do etanol. O grupo Nissan-Renault tem anunciado nas últimas semanas que em dois anos lançará no mercado europeu dois novos tipos de veículos: veículos elétricos e veículos movidos a hidrogênio. Isto é o começo do fim dos motores a combustão. Por outro lado, começam a se tornar viáveis as usinas de produção de energia a partir de outras fontes, que não as termoelétricas, até em razão do progressivo aumento do preço do petróleo no mercado mundial.

Então, apesar de tudo isso que ocorre no mundo, o Dia Mundial Sem Carros, no meio dos canaviais de São Paulo, não passou de uma notícia estranha nos canais de TV.

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3 Comentários leave one →
  1. alziro permalink
    25/09/2008 22:49

    Em primeiro lugar, parabéns pelo vosso trabalho! Bom, você deve ter razão sobre uma série de dados que apresenta, mas sobre a tal classe média parasitária, não faz muito sentido… Alugar propriedades faz parte de qualquer negócio. Agro ou não. E se o aluguel é barato (o que eu acho mesmo que não é, pelo menos não no interior no Mato Grosso do Sul) é uma questão de ajuste entre as partes interessadas, independente se é por causa da cana, do gado, do limão ou da laranja… “Viver de renda”, como se diz, é uma excelente opção pra muita gente e não há nada de indigno nisso. É como comprar ações hoje para que um dia possamos viver do dinheiro que aquele nosso bem irá nos render…. enfim. E por aí vai…

    Outra dúvida: A pecuária não seria também extremamente nociva ao ambiente no qual se insere. Emissão de gases? Erosão do solo por pisoteamento, e etc?

    Um abraço
    Alziro

  2. Eu paulo permalink
    25/09/2008 23:57

    Sem falar do vento, fui pro interior, pro noroeste, pruma cidadezinha, prum casamento na igreja, e fio, venta que é uma beleza, não existe mais árvores qubra vento em volta das cidades, é uma tristeza total.

  3. ogum777 permalink
    26/09/2008 17:51

    Alziro,

    Se as coisas ocorressem como vc cita, tudo estaria correto… mas vamos aos fatos.
    1. As usinas delimitam “áreas de influência” – não concorrem entre si. Assim, uma determinada usina estabelece o preço, unilateralmente, que pagará por cada alqueire arrendado. Este valor tem sido progressivamente menor nos últimos 10 anos.
    2. Uma pequena propriedade, que se veja cercada pela plantação de cana, não consegue produzir outra coisa. A queimada sempre avança sobre as outras atividades. É engraçado, pois a queimada não sai de controle a não ser pra ultrapassar as fronteiras de uma propriedade que produza outra coisa… Além de outros fatos “estranhos” que induzem o pequeno 9e médio também) proprietário de terra, no mais das vezes, optar por plantar cana, arrendar para a plantação de cana, ou vender a propriedade.
    3. Caso venda, “estranhamente” só consegue vender, ou melhor, fechar negócio, com alguém ligado a alguma usina.
    4. Caso arrende, não negocia livremente o valor do arrendamento.
    5. Caso plante cana independentemente, “estranhamente” (novamente!) só compra sua produção a usina que detém aquela “área de influência”. Todas as demais se recusam a comprar em razão da localização da produção. Mesmo que o produtor arque integralmente com o frete!

    Assim, não vejo caracterizada a legitimidade de um negócio que, em tese, deveria respeitar a autonomia da vontade….

    Por outro lado, os danos ambientais são maiores. É preciso muito boi pra acabar coma água, como tem acontecido ao redor de Catandvua. Esta cidade sempre teve enchentes horrorosas que desapareceram em meados dos anos 80, quando a cultura da cana instalou-se por completo. A última grande enchente se deu em 1983, e neste ano apenasuma enchente média de algumas horas, decorrente apenas de um problema de falta de limpeza de uma parte do leito do rio. Por outro lado, os moradores mais velhos relatamo sumiço de diversos córregos, regatos e riachos. Isto sem falar nas queimadas. Nesta época, qualquer dona de casa lava a casa inteira por conta sujeira que o ar traz: os restos das palhas queimadas, o pó preto.

    Encerro por aqui, mas poderia escrever um livro só sobre esses detalhes. Por isso, entendo ato aparentemente tresloucado de Francisco Anselmo de Barros, o Franselmo, ao se auto-imolar em 2005.

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