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O aquecimento global e a moda

25/08/2008
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A notícia não é tão nova assim: a ONU recomenda o uso de roupas leves para que se gaste menos no controle de temperatura dos prédios. A iniciativa chama-se “Cool UN”.

Acredito que a medida chama a atenção para algo que talvez nos incomode: a mudança dos nossos hábitos cotidianos. A moda, ou melhor, o modo de vestir-se, costuma trazer um conteúdo ideólogico muito forte. O vestir-se não é apenas uma questão de cobrir o corpo e proteger-se das intempéries climáticas, mas de comunicar-se. Principalmente nos grandes centros onde, ao contrário das pequenas cidades, ninguém mais sabe quem é quem. Vestir-se é posicionar-se na sociedade. Assim, o par terno-e-gravata representa uma certa “adesão ao sistema”, sendo que pequenos detalhes são moduladores comunicacionais. Usa-se terno seja sendo um executivo na Avenida Paulista, seja sendo o segurança do prédio one esse executivo trabalha, seja sendo um pregador de bíblia em punho no trem que o segurança usa para locomover-se da periferia de São Paulo ao sistema de Metrô que o levará à Avenida Paulista.

Assim, por esse exemplo, temos modulações do mesmo padrão: o terno bem cortado do executivo, o terno preto e barato do segurança privado, o terno armafanhado do pregador. E, se as mulheres podem perceber a diferença entre um e outro, achando esta ou aquela combinação mais ou menos atraente, pode-se também deprrender a classe social de cada um. Mas, independentemente disso, os três “enternados” numa megalópole tropical clamarão pelo ar condicionado.

As construções comerciais hoje em dia já são planejadas para a utilização do sistema de ar condicionado. Prédios são construídos de modo a nunca abrir-se as janelas: isola-se o calor fora e o ar resfriado dentro, isola-se também o barulho dos carros lá fora, assim como isolou-se o calor produzido por esses mesmos carros e pelo aquecimento das escuras ruas asfaltadas que fritam ao sol e aquecem o ar…

Todavia, qualquer estudante sabe que a batalha para evitar a troca de calor entre os corpos é muito cara. No caso das moradias e locais habitados de algum modo pelos humanos (escritórios e locais de trabalho incluem-se), nós temos um outro fator produtor de calor: o próprio corpo humano.

Ora, neste panorama, pagamos um preço caro apenas para um aspecto da vida humana. Pagamos caro para, num país tropical, vestirmos as roupas mais adequadas a um clima temperado. Temos um clima africano mas queremos nos trajar como europeus. Sim, salvo em razão de alguns traços faciais étnicos, como poderiamos diferenciar as fotos de uma platéia de um congresso jurídico brasileiro daquelas de um congresso jurídico nórdico? Os trajes são os mesmos…

Não é de estranhar, portanto, que num país onde estamso permanentemente trajados para enfrentar uma temperatura de 10 graus centígrados embora à rua estejamos a 32 graus à sombra, tanta gente recuse-se a largar o ar condicionado dos carros e locomover-se de outro modo. Andar, usando um terno escuro, pelas ruas de São Paulo, no mais das vezes significa portar sua própria sauna portátil. É difícil para a jovem funcionária da agência bancária pedalar trajando um tailleur de tecido sintético e calçando saltos altos. O suor borrará a pesada maquiagem que usa, logo pela manhã.

É diante deste pesadelo comportamental-relacional que se apresentam os problemas ecológicos urbanos. Há um conflito entre o que se entende como “modo correto de agir” nas relações sociais (principalmente as de trabalho) e os atos que poderiam ser ditos como ecologicamente corretos. Há um conflito entre o modo como a sociedade capitalista como um todo estruturou-se nas relações microscópicas (e também nas macroscópicas) e o meio ambiente, no qual, embora o homem ainda não tenha percebido, humanos são apenas uma espécie a mais, e não o centro do universo.

Se quisermos efetivamente poder habitar as cidades no futuro, precisamos repensá-las. E não se trata apenas de elaborar novos projetos de saneamento ou de transporte público, mas repensar como se vive. Melhor do que desenvolver aparelhos de ar-condiconado ecologimanete corretos, é não precisar utilizá-los. Melhor do que gastar pouca energia, é não ter que gastá-la.

Serviço:

Cool Un no site da ONU (em inglês):

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=27536&Cr=climate&Cr1=change

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