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Como ver a árvore sem ver a floresta

20/08/2008

Ricardo Coelho, Ecoblogue, 18 de agosto0 de 2008

No início dos anos 1990, a fundação FACE1, dos produtores de eletricidade holandeses, começou a plantar árvores para “compensar” as emissões de CO2 das centrais termoelétricas. O projeto pioneiro de compensação de emissões foi elaborado como forma de antecipar futuras regulações em relação às emissões de CO2 das centrais a carvão. A indústria esperava assim legitimar a construção de uma central a carvão na Holanda.

Árvores vs pessoas

Esta jogada de marketing foi bem sucedida. A central a carvão começou a operar sem oposição do governo e os produtores de electricidade conseguiram limpar a sua imagem. Melhor ainda, foram os consumidores que pagaram os custos da operação de plantação de árvores mas os lucros que agora se fazem com a venda de créditos de carbono convergem para a FACE2.

Um dos projectos mais emblemáticos da FACE é o do Parque de Mount Elgon, no Uganda, onde já plantaram 3 milhões de árvores. Os maiores perdedores são os Bagisu, uma tribo ugandesa que habita o Parque desde o século XIV. Em nome de um projecto que supostamente iria melhorar a sua qualidade de vida, foram expulsos das terras que ocupavam, como se fossem eco-criminosos. A FACE, contudo, limpa as mãos dos actos violentos de expulsão dos locais, arrastando a responsabilidade para o governo ugandês.

Os Bagisu têm recorrido aos tribunais para obter de volta as suas terras, com um sucesso moderado. A revolta com a injustiça tem levado também à acção directa, com uma boa parte da floresta plantada a ser destruída por quem foi expulso da sua terra. Curiosamente, como já é hábito nestes negócios, a FACE não devolve o dinheiro aos clientes que compraram créditos de carbono quando falha o seu objectivo de preservar a floresta plantada por um século3.

Do outro lado do globo, o mito do armazenamento do carbono em árvores permitiu o adiamento por uma década e meia da descarbonização do sector eléctrico holandês. Agora que se tornam cada vez mais evidentes as suas limitações, o sector eléctrico refugia-se noutro mito: a captura e sequestro de carbono. O primeiro mito legitimou a construção de uma central a carvão, o segundo serve como justificação para a construção de mais duas centrais a carvão.

O negócio de “compensação de emissões” permitiu também a comercialização de um “novo” produto: o gás verde. Trata-se de gás natural, tão poluente como qualquer outro de outra marca, mas as suas emissões foram “compensadas” pelas árvores ugandesas.

Segundo o documentário holandês “CO2 alibi”4, um vôo de férias às Ilhas Canárias (partindo da Holanda) emite mais de 500 toneladas de CO2. Para compensar estas emissões, é necessário ocupar um hectare de terra no Uganda por 99 anos. Mas esta terra poderia sustentar 10 ugandeses por 99 anos. A compensação de emissões não passa assim de um negócio neo-colonialista, usurpando as terras dos mais pobres do mundo para satisfazer a consciência dos ocidentais.

Promessas ao vento

A FACE foi crescendo com o tempo, tornando-se numa multinacional de créditos de carbono. Ao todo, detém já 500 mil hectares de floresta em todo o mundo. As povoações locais são aliciadas com a promessa de rendimentos consideráveis mas cedo descobrem que foram enganadas.

No norte do Equador, a FACE plantou uma floresta de pinheiros, invadindo o páramo, um ecossistema único dos Andes onde a vida prospera a altitudes entre os 3100 e os 5000 metros. Em 1993, foi firmado um contrato com a comunidade de Mojandita, maioritariamente indígena, segundo o qual a comunidade seria responsável pela manutenção da floresta plantada5.

Tal como no caso do Uganda, a FACE não detém directamente a floresta, assinando antes contratos com os proprietários de forma a assegurar os direitos de propriedade sobre a capacidade de sequestro de carbono. As comunidades locais obtém assim receitas sobre a venda destes direitos de propriedade e dos produtos florestais. Parecia ser um bom negócio mas de facto não era.

Não tardou muito até que surgissem os primeiros problemas. As receitas foram inferiores ao esperado, dados os elevados custos de manutenção da floresta. Em particular, ao fim de dez anos ainda não se tinham materializado as receitas da venda de produtos florestais, dado que os pinheiros não haviam ainda atingido a maturidade. Isto não é incomum nas plantações de pinheiros, especialmente quando são plantados fora do seu habitat natural, mas os locais nunca foram informados acerca desta eventualidade.

A monocultura de pinheiro resultou também num desastre ecológico. Uma boa parte da flora local que circundava a floresta desapareceu, devido à sombra provocada pelas árvores e à desertificação das terras. O ciclo da água foi perturbado, afectando o abastecimento de água para irrigação e consumo de uma região já fragilizada pelo degelo dos glaciares.

Mesmo o objectivo central – o sequestro de carbono – pode não ter sido alcançado. Para plantar os pinheiros, as terras tiveram de ser limpas da vegetação original, libertando-se grandes quantidades de carbono. Como os pinheiros não cresceram tanto como o previsto, é possível que o saldo seja negativo, ou seja, que o projecto tenha libertado mais carbono na atmosfera. Nada que preocupe a FACE, claro, dado que não contabiliza as perdas de carbono resultantes da alteração do uso dos solos. Todo o negócio depende assim da manipulação da ciência.

Dez anos depois da plantação dos pinheiros, tudo se desvaneceu em fumo. Em 2003 um incêndio de grandes proporções dizimou metade da floresta. O barril de pólvora tinha explodido.

Seguiu-se uma batalha judicial, com a FACE a exigir compensação financeira da comunidade de Mojandita. A comunidade recorreu a organizações indígenas e ecologistas, as quais enviaram uma carta aberta à FACE defendendo que a maior responsabilidade pelo incêndio pendia sobre a fundação, dado que havia plantado uma monocultura de pinheiro em vez de optar por árvores mais resistentes ao fogo. A ameaça de mobilização dos indígenas contra a FACE foi eficaz ao ponto de esta retirar as queixas contra a comunidade de Mojandita.

Actualmente, a vegetação local reconquista o seu espaço no Páramo. As comunidade indígenas aprenderam a sua lição, já que se comprometeram a nunca mais firmar contratos com empresas de créditos de carbono.

Uma solução fácil

A plantação de árvores oferece uma saída fácil para os maiores poluidores. Por um custo irrisório, podem “anular” as suas emissões e assim melhorar a sua imagem junto dos consumidores, assim como evitar pressões dos governos para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Não é de admirar, portanto, que 40% dos créditos de carbono gerados no mercado voluntário sejam de projectos de florestação. A evidência científica contra o mito da “compensação de emissões”6 de pouco vale quando estão em jogo importantes interesses económicos.

Entretanto, surgem outros mercados associados a serviços ambientais. Recentemente, foi criada uma reserva na Malásia por uma agência de investimento australiana, com o objectivo de vender “créditos de biodiversidade tropical” às empresas responsáveis pela destruição de florestas tropicais. A Coca-Cola, com o apoio da WWF, está a financiar projectos de conservação de água em África como forma de “compensar” a usurpação de água de comunidades pobres na Índia pelas suas fábricas. Enormes áreas de florestas na Indonésia, no Congo, na Guiana e em Madagáscar estão a ser adquiridas por agências de investimento como a Merril Lynch, antecipando a criação de mercados de serviços ambientais, tais como a fixação de carbono, a prevenção da erosão, a regulação dos ciclos hídricos ou a preservação da biodiversidade.

É isto o capitalismo no seu pior. Não há melhor oportunidade de lucro que a desgraça alheia, seja a degradação ambiental ou a crise agrícola. Para cada comunidade pobre que sofre os efeitos da globalização da exploração, existe pelo menos um capitalista pronto para lucrar com a miséria, com o consentimento de muitos governos e muitas ONGs. Como se a solução para a exploração do planeta e das pessoas que o habitam estivesse no casino bolsista e não no activismo social.
1 – Forest Absorbing Carbon Dioxide Emissions (em http://www.stichtingface.nl/).

2 – Não é permitido (por enquanto) gerar créditos de carbono pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo através de projectos de florestação. Os créditos gerados pela plantação de árvores podem, no entanto, ser vendidos num dos muitos mercados voluntários, permitindo que empresas e indivíduos se apresentem como “neutros em carbono”.

3 – O dióxido de carbono (CO2) permanece activo na atmosfera por 100 anos, pelo que a plantação de uma floresta apenas poderá ter algum impacto no ciclo de carbono se as árvores se mantiverem de pé durante este período de tempo. Quando uma árvore morre ou arde, o carbono armazenado é libertado de novo para a atmosfera, logo o armazenamento de carbono é apenas temporário.

4 – O documentário (com legendas em português) pode ser visto aqui: http://player.omroep.nl/?aflID=7320915

5 – Os detalhes do negócio são explicados no relatório da ONGA Acción Ecológica “Sumideros de Carbono en los Andes Equatorianos”.

5 – Ver, por exemplo, a declaração da Royal Society sobre os sumidouros de carbono, “The role of carbon sinks in mitigating global climate change”.

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One Comment leave one →
  1. José Alipio permalink
    17/06/2009 17:00

    Ref: Receita com o Reflorestamento e a Venda de Crédito de Carbono.

    Boa tarde!

    Gostaríamos de maiores informações referente a reflorestamento X Venda de Crédito de Carbono.

    Possuímos a mais de50 anos uma fazenda com 600 alqueires (paulistas), na região da grande São Paulo, onde metade é floresta e a outra reflorestamento de Eucalipto.

    Grato,

    José Alipio
    josealipio@yahoo.com.br

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