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Este julho é o mais seco da história de São Paulo

31/07/2008

Com o aquecimento global, o clima tende a conhecer oscilações extremas. E é o que está acontecendo em São Paulo. Em 2007, mês de julho teve o maior registro de chuva em três décadas, mas neste ano, não choveu nenhum milímetro, agravando a aridez urbana provocada pela gigantesca mancha de asfalto e concreto.

Fernanda Aranda, O Estado de S.Paulo, 31 de julho de 2008

No intervalo de 365 dias, a capital paulista registrou dois recordes extremos. Enquanto em 2007 o mês de julho foi o mais chuvoso das últimas três décadas, com índice pluviométrico acumulado em 130,4 milímetros, neste ano o mesmo mês, que termina hoje, teve o registro mais seco de todos os tempos. A ausência até de garoa culminou no registro “zero” de chuva, estiagem inédita em São Paulo desde 1943, quando as medições começaram.

Sem chuva para dispersar os gases tóxicos, a qualidade do ar paulistano foi afetada. Os dados da Companhia Estadual de Tecnologia e Saneamento Ambiental (Cetesb) mostram que 20 dos 31 dias do mês foram desfavoráveis à dispersão dos poluentes. O número atual supera em 57,8% as 11 notificações de julho do ano passado, quando o clima estava menos árido. E a situação só deve melhorar no sábado, dia em que uma frente fria chega à cidade, conforme previsões do Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE).

São duas as explicações para que prevaleça um clima desértico. “A primeira é o fenômeno ambiental”, observa o técnico do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) Marcelo Schneider. “É comum as chuvas serem esporádicas, mas neste ano as frentes frias estão fracas e não conseguiram vencer o bloqueio da densa massa de ar seco.”

Além do fator climático, também existe a contribuição arquitetônica, segundo a geógrafa Helena Ribeiro, do Departamento Ambiental da Faculdade de Saúde Pública. “O homem provocou a aridez urbana ao construir tantos prédios , pavimentar a vegetação e destruir os lagos, características que influenciam na questão do tempo seco.”

Aliás, desde que os arranha-céus tomaram conta de São Paulo, nos anos 60, o apelido de Terra da Garoa caiu em desuso. “Com a urbanização, os prédios e o asfalto mudaram a dinâmica da radiação. A evaporação é mais rápida, o chuvisco deixa de ser freqüente e, quando chove, as águas vêm em forma de tempestade”, diz a geógrafa.

BAIXA UMIDADE

Ontem, mais uma vez a baixa umidade relativa do ar castigou a capital paulista. Entre 14 e 16 horas, o índice ficou em 25%, marca inferior ao mínimo de 30% estipulado pela Organização Mundial de Saúde para não provocar danos. O tempo seco ainda abre espaço para crises respiratórias e alérgicas e problemas de pele.

O recorde de escassez de chuva bateu a antiga marca alcançada em 1974, quando o índice pluviométrico de julho foi de 0,4 milímetro. “Por todas as análises anteriores, chega-se a uma média de 44 milímetros para o mês”, diz o professor do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo de Camargo. “Mas as massas de ar seco sempre marcam presença no inverno. Por isso, o gráfico da série histórica é uma montanha-russa.”

O agravante é que, neste ano, o calor influenciou. As temperaturas máximas do mês ficaram numa média de 24ºC, acima do registro histórico de 22ºC. Com isso, um poluente típico da primavera, o ozônio, também marcou presença nas férias de meio de ano. “As estações registraram três vezes índices fora do padrão seguro para ozônio e outras duas vezes registros inadequados, por causa das partículas inaláveis”, afirma Maria Helena Martins, técnica da Cetesb. “Em julho de 2007, em apenas duas vezes as estações chegaram a marcas inadequadas, nenhuma por causa do ozônio.”

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