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O Carro e o Amor

13/06/2008

 “Como é que você come alguém sem um carro?”

 

Quando eu ouvi a indagação de um amigo, indagação essa feita com os olhos arregalados, a surpresa foi minha. Nunca havia parado para pensar neste aspecto específico do papel do carro na vida das pessoas. Apenas respondi: “Ora, como todo mundo, pois, pelo que sei, já havia sexo antes da invenção do automóvel…”.

 

Fiquei dias pensando no despropósito daquela pergunta (o “causo” aconteceu há alguns anos, e, à época, minha vida amorosa estava, digamos assim, um tanto tumultuada…). A mim nunca havia feito falta a presença de um carro nos relacionamentos. Mas, depois, conversando com amigos, eu ouvi histórias de como a vida sexual de muita gente começou no banco de trás de um fusca… Eles pareciam tão emocionados ao contar isso, e eu ficava imaginado como é que se fazia “aquilo” num espaço tão apertado. Isso, talvez, poderia explicar a até então (para mim) inexplicável tara de um colega de faculdade por mulheres muito, mas muito baixinhas. Ele tinha um velho Fiat 147…

 

Eu, como não dependia do apertado espaço de um automóvel, podia me dar ao luxo de paquerar mulheres altas, inclusive mais altas que eu. Sim, elas possuem seus charmes, e, pra quem não está no exíguo espaço do banco de um Ford Ka, uma mulher de 1,85 de altura (15 cms. mais alta que eu, isto sem os saltos) não é uma companhia indesejável.

 

Mas os homens, em geral, parecem pensar que o carro é um item essencial para a possibilidade (vejam bem, possibilidade!) de um relacionamento qualquer, com duração variável (de 15 minutos a bodas de diamante). Não falo do prazer masculino da velocidade, que consiste em dirigir o mais rápido possível num carro que não é exatamente confortável, como era o caso do lendário Porsche 550. Esse carro voltado para a velocidade não atrai as mulheres, inclusive as afasta. Não é disto que falo, mas do famoso carro com a alcunha de “love machine”.

 

Os americanos, nos anos 60 e 70, adoravam converter furgões velhos em motéis ambulantes. Uma boa pintura por fora e, por dentro, revestimentos de carpete, e mesmo grandes colchões… Claro, nas pequeninas cidades americanas, o carro era essencial para se fugir dos olhos dos vizinhos. O mesmo ocorre ainda nas cidades do interior paulista, onde um dos principais esportes dos sábados à noite (tanto para solteiros quanto para amarrados em geral) é “montar a barca”, ou seja, conseguir escapar furtivamente para algum lugar com uma companhia. Pergunto-me se a expressão não vem da época em que se utilizavam grandes automóveis (como os Galaxies, Landaus, Dodges, com seus imensos bancos traseiros) para esse tipo de atividade.

 

Mas nos grandes centros não é mais assim. Na grande São Paulo, não consigo imaginar um casalzinho fugindo num sábado à noite num carro para o meio do canavial… Apenas os insensatos namorariam dentro dos carros: é convite certo para um sequestro relâmpago.

 

No entanto, ainda vemos o carro ter um papel importante no relacionamento de algumas pessoas. Há rapazes que ainda acham que o carro é essencial para isto, e há mulheres que também acham o mesmo. É um pouco deprimente: uma pessoa achar que todos os seus méritos atrativos resumem-se à posse de um carro, ou avaliar um possível parceiro apenas por esse detalhe… Eu vejo o carro como um grande inibidor dos relacionamentos: as pessoas entram nele e logo colocam a música alta, inibindo a conversação. Como relacionar-se bem com alguém com quem não se consegue conversar? Tão melhor é uma caminhada… pode-se andar de mãos dadas, pode-se andar abraçado, pode-se parar num lugar e tomar um café ou chá tranqüilamente, sem precisar ficar vigiando o carro… pode-se para na frente de vitrinas, ver as novas publicações numa banca de jornal, comer um doce numa doceria ou tomar um sorvete (e com menos culpa, pois calorias estão sendo queimadas).

 

Claro, isso quando se está com uma mulher que goste de caminhar e de conversar animadamente, pois a conversa é essencial para um relacionamento decente. Dizem os chineses que deve-se casar com alguém com quem se goste de conversar, e acredito que o namoro é a época de se perceber isso. É só olhar os sorridentes (e quantas vezes gargalhantes) casais andando à pé pelas calçadas da Avenida Paulista nas tardes de finais de semana.

 

Por outro lado, pessoas que pedalam costumam ser mais divertidas. Talvez pelo exercício físico constante que libere mais endorfina, ou talvez pelo fato de que apenas pessoas com um outro olhar sobre o mundo desafiam a regra geral da sociedade do automóvel, que é sempre locomover-se dentro de um. Mas homens que compensam seus complexos por meio da posse de carros caros, e mulheres que avaliam homens pelos referidos veículos costumam ser pessoas bem desinteressantes… pelo menos para mim.

 

Então, rapaz, em vez de gastar toda sua energia para conseguir um carro e utilizar a tática do “ou dá ou desce” (e acostumar-se com mulheres descendo, pois isso é uma violência), muna-se de um pouco de conteúdo. Pois se a garota que tem em vista acha o carro um pré-requisito necessário, talvez não valha à pena todo o seu esforço. Mulheres realmente maravilhosas não prestam a mínima atenção nas novas rodas do seu carango, e preferem homens que, à saída do cinema, as convidem para um café e uma boa conversa, e não que saiam correndo pegar o carro no estacionamento para não pagar uma hora a mais. E, claro, lembre que grandes relacionamentos (de Romeu e Julieta a Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, passando por Abelardo e Heloísa, entre tantos outros) passaram ao largo do automóvel. Da próxima vez, deixe o carro em casa, e leve seu cérebro e seu bom humor.

 

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11 Comentários leave one →
  1. 13/06/2008 7:01

    Muito bom! É um dos meus filtros para encontrar gente interessante, também.

    De passagem: sábado estaremos na Paulista fazendo história.

  2. Manoel Neto permalink
    13/06/2008 13:02

    Muito bom, Odir!
    Só faltou comentar uma coisa: nos témos drive-tru!! Então, ao invés do canavial, pagamos pra ir no drive-tru!!!
    abçs

  3. Manoel Neto permalink
    13/06/2008 13:02

    Correção: “nós temos drive-tru”

  4. 16/06/2008 10:12

    Muito bom este texto.

    Fiquei imaginando que talvez a expressão “montar a barca” deva ser mais antiga, quando os jovens levavam suas namoradas para passear de canoa em algum rio. Até hoje, em comunidades litorâneas, os pescadores levam suas esposas para navegar no mar.

    De fato, também os veículos flutuantes servem à sedução; é só lembrar o fetiche do yacht.

    E não só nos relacionamentos amorosos, mas também nas relações de amizade o carro atrapalha. Há pessoas que saem com a turma num carro que parece um trio elétrico, e a interação entre elas não pode deixar de ser epidérmica. Experiência própria.

  5. 22/06/2008 9:09

    Adorei este texto, será que eu poderia posta-lo no meu blog http://www.abacoros.blogspot.com.br.

  6. 22/06/2008 9:11

    Se possível responda no meu e-mail, obrigado.

  7. zecopol permalink*
    22/06/2008 11:50

    Claro pode publicar sim, qq coisa aqui pode ser publicada desde que obedeça as regras do copyleft, para lê-las acesse aqui,
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Copyleft#Copyleft_.22completo.22_e_.22parcial.22

  8. Aline Cavalcante permalink
    11/01/2010 1:11

    nossa! lindo texto!
    prefiro ter outros valores tambem, outras visões de mundo e outros parâmetros pra pessoas ‘interessantes’.. observem a frase que inicia o texto “Como é que você come alguém sem um carro?”
    ja tire por ai o nivel do individuo…

    tudo bem que nao me imagino entrando num motel de bicicleta, nem a pé! hahahahaha TALVEZ PRA ISSO eu prefira ir de carro…

  9. 11/01/2010 9:38

    Muito legal mesmo!

    Essas famosas ‘marias gasolinas’ ficam automaticamente fora da lista de possibilidades. hehehe

    Abraço!

  10. 11/01/2010 16:05

    Com certeza, um post que só reforça o que se tem visto no mundo. Mas o que mais contribuiu, assim como no cigarro e bebida, foram as propagandas e filmes apelativos para o uso do carro. Até mesmo no DE VOLTA PARA O FUTURO, se vê isso, quando o pai de Marty briga com Biff.

    Realmente, na era da sustentabilidade, na fase de superações, e do desenvolvimento de nosso país (com o pré-sal e novas oportunidades), nessa década, esperamos muita mudança nesses ‘padrões podrões’. O cérebro, o espírito que busca o que realmente vale nessa vida, e a persistência, sempre contarão mais! Grande abraço!

    Ivan Rolim
    http://www.megariders.net
    Vencendo Limites em defesa do meio ambiente

  11. Luiz Fernando permalink
    04/03/2011 3:34

    Gostei muito do texto, pena que sabemos que as pessoas para o qual ele se direciona não vão ler, porque “não comem ninguém com isso”.

    Mas proponho que pensemos a frase do seu amigo,
    “Como é que você come alguém sem um carro?”,
    sob o aspecto do carro como simples meio de transporte e não como atrativo para uma Maria Gasolina.

    Exemplo: vc conhece uma menina em uma ocasião qualquer, ambos se acham interessantes e a partir disso rola um clima. Vc a chama para sair, mas:

    – como vai buscá-la? (é cavalheiro, e não machista, oferecer carona). é tarde/perigoso para transporte público e caro para um táxi

    – e se aparecer a oportunidade de sexo, quer seja só isso ou chegue às Bodas de Diamante, como vc faz? a outra garota comentou e assino embaixo: não me vejo entrando num motel a pé.

    CONCLUSÃO:

    Concordo com todos os princípios postados, mas acho que o carro significa transporte, liberdade em primeiro lugar – ainda mais na juventude.

    Depois, assim como qualquer bolsa, sapato, celular etc, há marcas, modelos e principalmente atitude dos donos que nos levam a inferir imposição de status.
    E muita gente come muita gente assim.

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