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Em busca de novo consenso mundial

05/04/2008

Washington Novaes

Quanto mais passa o tempo, mais se torna evidente: o mundo todo terá de aprender a fazer as contas dos custos ambientais e sociais embutidos em todas as ações de governos, empresas e pessoas – que se estão tornando insuportáveis e ameaçam a estabilidade em todos os lugares. Eles terão de ser evitados, reduzidos e atribuídos a quem os gera, não a toda a sociedade. E será preciso rever conceitos e princípios anacrônicos que ainda regem o mundo.


Informações dos Proceedings of the National Academy of Sciences dos EUA, divulgadas há poucas semanas, reforçam essa convicção. Segundo esse estudo, o dano ecológico provocado pelas nações mais ricas (mudanças do clima, depleção da camada de ozônio, sobrepesca, depredação dos mangues, desflorestamento, expansão agropecuária predatória) tem custado aos países mais pobres, ao longo de 40 anos, mais que sua dívida externa conjunta ao longo desse tempo todo (New Scientist, 26/1). Esse dano é calculado em US$ 47 trilhões, quase tanto quanto o PIB anual de todo o mundo, hoje, e cerca de 30 vezes o PIB anual brasileiro. Os países ricos respondem por nada menos que 55% dos custos ambientais que ocorrem nos mais pobres. Ficam com 85% do pescado capturado nos mares dos países mais pobres; estes geram apenas 1,3% dos gases que afetam a camada de ozônio, mas ficam com 15% dos custos de saúde daí decorrentes – são dois exemplos.

Já há muitos anos a ONU diz que os países industrializados, com menos de 20% da população mundial, detêm quase 80% da renda, da produção e do consumo total. Só que a maior parte dessa produção depende de recursos naturais dos países mais pobres – mas sem compensá-los pelos danos ambientais e sociais com a extração e exportação.

A situação já preocupa esses países centrais. A Comunidade Européia, por exemplo, no seu Green Paper do final de janeiro último, inquieta-se por estar dependendo cada vez mais de insumos energéticos e produtos intensivos em energia que importa – no transporte, na indústria, na geração de energia, entre outros setores. Hoje, 41% de sua energia depende do petróleo; 22%, do gás; 16%, do carvão; 15%, da energia nuclear; e só 6% são energias renováveis. Nos três primeiros setores, a dependência da importação é muito forte: 50%. E em duas décadas poderá passar de 70%. Alguns fatores preocupam muito. O primeiro é o preço. O do petróleo, por exemplo, triplicou desde 1999. O segundo é a concorrência no consumo. Se a China, por exemplo, atingir o padrão dos países ricos, a média mundial de consumo dobrará (hoje o chinês consome 11 vezes menos que o norte-americano). No conjunto dos países industrializados, é 32 vezes maior que nos países “em desenvolvimento” o índice médio de consumo de recursos naturais, petróleo e metais.

Por essas e outras, o mundo parece cada vez mais pessimista. No último Fórum Econômico Mundial, em Davos, o Instituto Gallup apresentou o resultado de pesquisa feita em 60 países (o Brasil não foi incluído) com 61 mil pessoas: 37% acham que as próximas gerações serão menos ricas que as atuais e só 33% pensam o contrário. Mas nos EUA 54% demonstram esse pessimismo; na Europa, 43%. E a maioria não vê caminhos para mudar: 71% das pessoas nos EUA acham os políticos desonestos; na América Latina, 77%; na Europa, 50%. Essas pessoas parecem compartilhar a sensação de que a política e o poder, cada vez mais, se movem em realidades descoladas da realidade dos cidadãos no seu dia-a-dia; movem-se por regras e interesses apenas corporativos, por assim dizer.

O sociólogo Zygmunt Bauman, das Universidades de Leeds e Varsóvia, em seu último livro lançado no Brasil – Medo Líquido, editora Jorge Zahar -, chega a afirmar que “todas as situações que nos ameaçam parecem orientadas por fatores que fogem ao nosso controle” e que “governos e mercados têm interesse em manter esses medos intactos; e, se possível, em aumentá-los” (Estado, 27/1). Para Bauman, há “cada vez mais políticos sem poder e poderes sem nenhum controle político”. Nessa imensa incerteza em que vivem, as pessoas quase só se preocupam em aumentar seu consumo – o que conduz a problemas talvez até maiores.

Como se mudará o quadro? Há poucos dias, o ex-ministro da Fazenda Paulo R. Haddad escreveu neste jornal (26/3, B2) que “tem surgido um grande número de propostas para se construir uma nova ordem econômica internacional baseada numa concepção abrangente e ampliada de desenvolvimento sustentável”; porque, pensa ele, “para haver prosperidade no futuro, a sociedade tem de usar seus recursos ambientais de forma imensamente mais produtiva e socialmente mais justa com as atuais e as futuras gerações”.

Uma das pessoas mais atentas ao panorama global, o ex-ministro da Marinha do Brasil almirante Mario Cesar Flores tem dito, em textos nesta página, que a agenda da política externa, da segurança e da defesa terá de tratar cada vez mais das questões do meio ambiente e dos recursos naturais – porque o consumo está atingindo níveis perigosos no século 21 e não há tecnologia capaz de resolver a maior parte dos problemas. “O modelo de desenvolvimento estruturado no uso desmesurado de recursos naturais e descuidado em relação ao meio ambiente gerará tensões fortes”, diz ele, “porque põe em risco o futuro do gênero humano”. Mas não se conseguirá avançar sem pôr em questão a “amplitude ilimitada do princípio da soberania”, tal como definido há quase quatro séculos. “É hora”, afirma, “de se pensar num balizamento atento a essas complexas questões supranacionais.” Em outras palavras, trata-se de “criar, por consenso mundial, normas e metas racionais que respondam ao interesse da humanidade”.

Convém prestar atenção, nesta hora crítica em que continuamos aferrados, em nossa política, a velhos conceitos que precisam ser revistos.

Washington Novaes é jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

Link do texto: http://txt.estado.com.br/editorias/2008/04/04/opi-1.93.29.20080404.2.1.xml

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