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Sobre bois e devastação…

13/03/2008

carn_011.jpgJoão Meirelles Filho pertence à terceira geração de pecuaristas em sua família. Formado em Administração, passou dez anos gerindo fazendas de gado em Mato Grosso do Sul. No fim da década de 90, sua carreira mudou. Com a chegada do ecoturismo à região, Meirelles acordou para os impactos ambientais de algumas atividades, como a pecuária. Deixou de comer carne. Largou as fazendas e mudou-se para Belém, onde fundou uma ONG para defender a Amazônia. Hoje, vegetariano, é um dos que pregam a redução no consumo de carne bovina para salvar a floresta. “Parei de comer carne aos 40 anos”, diz. “É prova de que qualquer um pode mudar seus hábitos.”

O gado tem sido considerado o grande vilão da Amazônia. Hoje, o Brasil mantém 195 milhões de bovinos. Há mais bois que pessoas. Cerca de 35% desse rebanho está na Amazônia. Para alimentar o gado, os pecuaristas desmataram uma área de 550 quilômetros quadrados, o equivalente ao Estado de Minas Gerais. Criados livres no campo, sem ração, os bois precisam todo ano de novas áreas derrubadas para a formação de pasto.
A pecuária na região está ligada à ocupação irregular de terras públicas. As terras da região pertencem ao Estado e em sua grande maioria foram tomadas na forma de posse. “Sem ter de pagar pela terra, fica mais barato produzir lá que no Sul e no Sudeste”, diz Paulo Barreto, do Imazon. Para comprovar a posse da área tomada, o fazendeiro precisa mostrar que a terra é produtiva. “Para isso também servem os bois”, afirma Barreto.

Uma nova técnica
da Embrapa permite
criar quatro vezes
mais bois sem
derrubar a floresta

Além disso, segundo o Banco Mundial, o modelo regional de pecuária não traz o desenvolvimento. Seria até o contrário. Primeiro, porque a disputa por terras públicas faz a Amazônia ter um índice alto de assassinatos no campo. Cinco dos dez municípios mais violentos do país estão na região. Dados do Banco Mundial também demonstram que os Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) das cidades com grandes rebanhos são similares aos dos países mais pobres do mundo.

A tendência é que os bois avancem mais sobre a floresta, para atender a uma demanda crescente de carne para exportação. Hoje, 10% dos bois abatidos na Amazônia abastecem o mercado internacional. O grande obstáculo é a ocorrência de febre aftosa no rebanho da região. O Ministério da Agricultura, os produtores e os pesquisadores acreditam que, com a erradicação da doença, o rebanho pode até duplicar para atender à demanda internacional.

Diante desse quadro, pregar a redução no consumo de carne faz sentido. Isso não quer dizer que funcione. Para o próprio coordenador do Greenpeace na Amazônia, Paulo Adário, a idéia de salvar a floresta pela campanha contra o consumo de carne é “problemática”. O primeiro obstáculo, para ele, é o gosto do brasileiro pelo churrasco. “Não somos um país culturalmente vegetariano”, diz Adário. “Essa redução é mais fácil em alguns países, em outros não.” O segundo obstáculo é convencer a parcela da população que acabou de comemorar sua ascensão social, com acesso à carne, a abrir mão do churrasco no fim de semana. Com a desvalorização do dólar e a estabilização da economia mundial, muitas pessoas começaram a comer seus primeiros bifes diários nos últimos dez anos. Essa mudança de hábito alimentar é mundial. Aconteceu no Nordeste brasileiro e até na China, abrindo um novo mercado para a carne. “Falar para essa população que agora ela não pode comer carne pelo bem da Amazônia é, no mínimo, cruel.”

A solução pode ser um caminho intermediário. Parte dela passaria por uma redução – e não um abandono completo – do consumo de carne. Um brasileiro consome, em média, 38 quilos de carne bovina por ano. “Se optássemos por comer carne apenas três vezes por semana, em vez de todos os dias, a demanda seria menor”, diz Meirelles. “É uma boa opção para os que possuem poder aquisitivo e acesso a outros tipos alimentos.”

Um primeiro efeito na redução do consumo de carne, por paradoxal que pareça, pode ser um aumento na quantidade de bois. Uma situação similar já aconteceu com a entrada dos grandes frigoríficos na Amazônia, há sete anos. Eles baixaram o preço pago ao pecuarista. “Tivemos de aumentar o rebanho para compensar a queda”, diz Ronaldo Freitas, pecuarista de Rondônia. Por outro lado, caso a redução no consumo de carne persista e faça a pecuária ficar menos lucrativa, os pecuaristas podem, a longo prazo, reduzir os rebanhos. “Sem comprador, o melhor seria mudar de atividade”, diz Freitas.

Independentemente das campanhas, existem formas de produzir carne sem destruir a floresta. É o que afirma Marcelo Lessa, coordenador de agronegócio do IFC, braço do Banco Mundial que investe no setor privado. Ele está tentando mudar os critérios de compra dos frigoríficos naAmazônia. “É uma aposta para frear o avanço da pecuária predatória”, diz. Neste ano, o IFC começou a investir nos frigoríficos da região. Em troca, estabeleceu regras para a compra de carne. Nos próximos dois meses, os frigoríficos não poderão comprar de fazendas que tenham multas ambientais, estejam envolvidas em grilagem de terras ou tenham denúncias de trabalho escravo. Dentro de dois anos, vão exigir a regularização fundiária das fazendas fornecedoras.

Outra esperança é uma nova técnica agrícola desenvolvida pela Embrapa. O projeto é transformar áreas usadas apenas para pecuária num uso misto, com pastos, lavoura e até manejo florestal. O agricultor faz uma rotação dessas culturas em seu terreno. O gado é alimentado com grãos produzidos na propriedade. Com isso, uma área com 0,7 boi por hectare pode manter um rebanho quatro vezes maior. Gera até um excedente de grãos para venda externa. “Podemos continuar a comer carne sem precisar derrubar mais nenhuma árvore”, afirma Barreto, do Imazon.

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