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Artigo de Monbiot sobre biocombustíveis

17/02/2008

George Monbiot (Guardian, 12 Fev 08)

A nova geração de biocombustíveis torna-se o novo desastre ambiental.

 

Agora eles podem começar a sentar-se. Eles não ouvem os ecologistas ou mesmo os geólogos. Mas podem os governos ignorar os capitalistas?

Um relatório publicado a semana passada pelo Citibank, e até agora ignorado pelos media, aponta as “genuínas dificuldades” no aumento da produção do petróleo cru, “particularmente após 2012” (1). Embora 175 grandes projetos de extração começarão nos próximos quatro anos, “o medo permanece de que a maior parte desta oferta seja atingida por elevados níveis de declínio”. A indústria do petróleo tem ignorado a noção de que a oferta de petróleo possa atingir um pico, mas “recentes evidências da incapacidade em aumentar a produção tendem a mudar o peso das provas para os produtores”, à medida que eles se mostram incapazes de responder ao massivo aumento de preços. “A produção global de hidrocarbonetos essencialmente decaiu desde meados de 2005, ficando na linha dos 85 milhões barris por dia”.

O assunto é complicado, como sempre, pela recusa do cartel da OPEP em aumentar a produção. O que mudou, diz o relatório, é que os países fora da OPEP já não conseguem responder aos sinais dos preços. Significa isto que a produção de petróleo nesses países já atingiu o seu pico? Se é assim, o que pretendem os nossos governos fazer?

Há nove meses, eu perguntei ao governo britânico para me enviar as suas avaliações das reservas globais de petróleo. Os resultados surpreenderam-se: não há nenhumas (2). Elas se apóiam exclusivamente em uma única fonte externa: o livro publicado pela Agência Internacional de Energia. A omissão tornou-se estranha mesmo quando eu li o livro e descobri que essa era uma questão polémica, diminuindo aqueles que questionavam o futuro das reservas de petróleo sem terem evidências robustas para apoiar estas conclusões (3). Apesar dos membros da OPEP terem um interesse poderoso em exagerar as suas reservas para aumentarem as suas quotas, a AIE baseou-se nas suas avaliações sobre as reservas futuras.

A semana passada tentei de novo e recebi a mesma resposta: “o Governo concorda com as análises da AIE de que as reservas globais de petróleo (e gás) são suficientes para sustentar o crescimento econômico para o futuro próximo.” (4) Talvez não tenha sido notado que a AIE está agora recuando. O Financial Times diz que a agência “admitiu que tem prestando insuficiente atenção às restrições da oferta uma vez que a evidência mostra que o petróleo está sendo descoberto mais lentamente que o experado…as taxas de declínio natural para os campos descobertos é um segredo bem guardado da indústria do petróleo, e a AIE está preocupada se os dados de que dispõe atualmente não estão atualizados.” (5). E se os dados estão errados? E se as reservas atestadas pela OPEP são mentira? Que planos de contingência tem o governo? As respostas são nenhuns.

A Comissão Européia, pelo contrário, tem um plano e é um desastre. Reconhece que a “dependência ao petróleo do setor dos transportes…é um dos problemas mais sérios da insegurança da oferta de energia que a UE enfrenta” (6). Em parte para diversificar as fontes de combustível, em parte para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa, ordenou aos Estados Membros para assegurarem que em 2020 10% do petróleo queimado nos nossos carros deve ser substituído por biocombustíveis. Isto não vai resolver o pico do petróleo, mas vai pelo menos colocar isso em perspectiva ao causar um problema ainda maior.

Para ser justo com a Comissão, foi agora reconhecido que os biocombustíveis não são a panacéia verde. A sua proposta de diretiva estabelece regras para que eles não sejam produzidos pela destruição de florestas primárias, pastagens antigas ou zonas úmidas, uma vez que isto poderia aumentar as emissões líquidas de gases de efeito de estufa. Nem nenhum ecossistema rico em biodiversidade pode ser danificado para os fazer crescer (7).

Parece bom, mas há três problemas. Se os biocombustíveis não podem ser produzidos em habitats virgens, eles devem ser confinados à terra agrícola atualmente existente, o que significa que todas as vezes que abastecemos o carro estamos tirando comida da boca das pessoas. Isto, por sua vez, aumenta o preço dos alimentos, o que encoraja os agricultores a destruir os habitats – florestas primárias, pastagens antigas, zonas húmidas e o resto – para fazer crescer alimentos. Podemos congratular-nos por permanecermos moralmente puros, mas os impactos são os mesmos. Não há saída disto: num planeta finito com reservas de alimentos apertadas ou se compete com os esfomeados ou limpa-se novas terras.

O terceiro problema é que a metodologia da Comissão foi destruída ainda agora por dois novos estudos. Publicados na revista Science, eles calculam os custos totais de carbono da produção de biocombustíveis (8, 9). Quando a alteração do uso do solo (direta ou pela substituição da produção de alimentos) é tomada em conta, todos os principais biocombustíveis causam o aumento massivo de emissões.

Mesmo a fonte mais produtiva – o crescimento de cana-de-açúcar no Brasil – cria uma dívida de carbono que leva 17 anos a ser paga .Como as maiores reduções de carbono devem ser realizadas agora, o efeito líquido desta cultura é exacerbar as alterações do clima. A pior origem – a substituição da floresta tropical em zonas úmidas pelo óleo de palma – tem uma dívida de carbono de cerca 840 anos. Mesmo quando se produz etanol do milho na “parte restante” da terra arável (o que na UE é chamado de set-aside e nos EUA de reserva de conservação), leva 48 anos a reparar a dívida de carbono. Os fatos mudaram. Vai a política segui-los?

A maioria das pessoas acredita que há um modo de evitar estes problemas: fazendo os biocombustíveis não das culturas mas dos resíduos das culturas. Se o combustível para transporte pode ser feito a partir de palha ou erva ou restos de madeira, não há implicações para o uso do solo e não há o perigo de espalhar a fome. Até muito recentemente eu próprio acreditava nisto (10).

Infelizmente a maioria dos “resíduos” agrícolas não é nada disso. É o material orgânico que mantém a estrutura do solo, os nutrientes e a reserva de carbono. Um documento comissionado pelo governo dos EUA propõe que, para ajudar a atingir as metas de biocombustíveis, 75% dos resíduos anuais das culturas deve ser removida (11). De acordo com uma carta publicada na Science o ano passado, remover os resíduos das culturas pode aumentar a taxa de erosão do solo 100 vezes (12). A nossa dependência ao carro, por outras palavras, pode levar ao pico do solo assim como o próprio pico do petróleo (13).

Remover os resíduos das culturas significa substituir os nutrientes que contém por fertilizantes, o que causa maiores emissões de gases de efeito de estufa. Um documento recente do Nobel laureado Paul Crutzen sugere que as emissões do óxido nitroso (um gás de efeito de estufa 296 vezes mais poderoso que o CO2) resultantes dos fertilizantes azotados anulam todas as poupanças de carbono dos biocombustíveis, mesmo sem contabilizar as alterações de uso do solo (14). As culturas de segunda geração, como as árvores e o Pânico (um tipo de gramínea), também não resolvem o problema: como outras culturas energéticas, elas substituem tanto a produção de alimentos como as emissões de carbono. O pânico (gramínea), mostra um novo estudo publicado na Science, cria uma dívida de carbono de 52 anos (15). Algumas pessoas propõem biocombustíveis de 2ª geração através dos resíduos da limpeza de plantas ou dos resíduos municipais, mas se já é muito difícil produzi-los de pastagens simples muito mais o é a partir de uma mistura. Sem ser a regeneração de óleos alimentares usados, não há algo como biocombustíveis sustentáveis.

Todas estas soluções complicadas são desenhadas para evitar uma simples: reduzir o consumo de combustível nos transportes. Mas isso requer o uso de diferentes mercadorias. As reservas globais de coragem política parecem, infelizmente, terem atingido o seu pico há já algum tempo.

Referências:

1. Citi, 4th February 2008. Industry Focus: Oil Companies – International.

2. Ver http://www.monbiot.com/archives/2007/05/29/what-if-the-oil-runs-out/

3. International Energy Agency, 2005. Resources to Reserves: Oil & Gas Technologies for the Energy Markets of the Future. Available electronically at: http://www.iea.org/textbase/nppdf/free/2005/oil_gas.pdf

4. Email do Energy Desk, Department for Business, Enterprise and Regulatory Reform, 8th February 2008.

5. Dino Mahtani, 26th December 2007. Oil watchdog reworks reserves forecasts. The Financial Times.

6. Commission of the European Communities, 23rd January 2008. Proposal for a Directive of the European Parliament and of the Council on the promotion of the use of energy from renewable sources, p8. http://ec.europa.eu/energy/climate_actions/doc/2008_res_directive_en.pdf

7. Commission of the European Communities, 23rd January 2008. Proposal for a Directive of the European Parliament and of the Council on the promotion of the use of energy from renewable sources, Article 15. http://ec.europa.eu/energy/climate_actions/doc/2008_res_directive_en.pdf

8. Joseph Fargione, Jason Hill, David Tilman, Stephen Polasky, Peter Hawthorne, 7th February 2008. Land Clearing and the Biofuel Carbon Debt. Science. Doi 10.1126/science.1152747.

9. Timothy Searchinger, Ralph Heimlich, R. A. Houghton, Fengxia Dong, Amani Elobeid, Jacinto Fabiosa, Simla Tokgoz, Dermot Hayes, Tun-Hsiang Yu, 7th February 2008. Use of U.S. Croplands for Biofuels Increases Greenhouse Gases Through Emissions from Land Use Change . Science. Doi 10.1126/science.1151861.

10. Agradeço ao Jim Thomas do ETC Group para me posicionar no sítio certo.

11. US Department of Energy e US department of Agriculture, April 2005. Biomass as Feedstock for a Bioenergy and Bioproducts Industry: the Technical Feasibility of a Billion-Ton Annual Supply. http://www1.eere.energy.gov/biomass/pdfs/final_billionton_vision_report2.pdf

2. David Pimentel and Rattan Lal, 17th August 2007. Letter: Biofuels and the Environment. Science.

13. Este termo foi utilizado por Alice Friedemann, 10th April 2007. Peak Soil: Why cellulosic ethanol, biofuels are unsustainable and a threat to America. http://www.culturechange.org/cms/index.php?option=com_content&task=view&id=107&Itemid=1

14. PJ Crutzen, AR Mosier, KA Smith and W Winiwarter, 1 August 2007. N2O release from agro-biofuel production negates global warming reduction by replacing fossil fuels. Atmospheric Chemistry and Physics Discussions 7, pp11191–11205. http://www.atmos-chem-phys-discuss.net/7/11191/2007/acpd-7-11191-2007.pdf

15. Joseph Fargione et al, ibid.

traduzido de: http://www.monbiot.com

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