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Ecologia: apenas mais um lobby?

05/02/2008

Nelson Ascher, em artigo nessa segunda-feira 04/02 escreveu um artigo na folha (aqui, para assinantes) argumentando que o movimento ecológico seria mais um lobby que encobririam as questões verdadeiramente relevantes. Como a folha é um jornal importante e aqui e ali ouvimos argumentos similares, vale a pena discutir um pouco os argumentos apresentados.

1. “Esse pessoal [ecologistas] não apenas meteu na cabeça que, devido a algumas variações de frações de graus nos últimos cem anos, o planeta está prestes a se derreter, como se convenceram também de que nós, ou seja, os seres humanos, é que somos a causa do suposto desastre.”

Não são os ecologistas que meteram idéias tolas na cabeça. São os últimos vinte anos de estudos científicos que apresentam evidências de que há um processo efetivo de aquecimento global. Mesmo os ditos “céticos” (em sua maioria pessoas pagas por indústrias) aceitam que há um aquecimento global, apenas discordam de que a causa seriam os seres humanos.

Com relação ao argumento de que o aquecimento global, se houver, não é causado pelos humanos, a esmagadora maioria dos artigos publicados em revistas científicas com revisão por pares aceita atualmente que a causa fundamental para o aquecimento global são os seres humanos.

2. “Gente como Al Gore, os militantes do Greenpeace e os burocratas transnacionais da ONU selecionam a dedo, entre inúmeras hipóteses contraditórias, as poucas que lhes confirmam os preconceitos, obtêm apoio de alguns cientistas que acreditam nelas, conseguem o silêncio de muitos outros e, valendo-se de modelos computacionais às vezes duvidosos, muitas vezes discutíveis e discutidos, transformam em verdade absoluta o que mal passa, no momento, de uma especulação entre tantas, declarando, precipitada e acientificamente, que se trata de consenso indiscutível”.

Não são os burocratas da ONU que selecionam hipóteses e então buscam apoios de alguns cientistas. São os próprios cientistas, reunidos num painel, que escrevem um relatório que represente o consenso científico contemporâneo. E só então os burocratas da ONU chamam a mídia e divulgam resumos e recomendações. Mas primeiro vem a ciência, depois a política.

Quanto ao fato de se usar simulações, acientífico é não compreender que cada vez mais as simulações são usadas em todas as ciências para aprofundar nosso conhecimento. Como tudo na ciência, sempre há espaço para discussão e questionamento (por isso é ciência, não charlatanice). Mas isso não significa que o consenso apresentado pelo IPCC seja mero chute. É o melhor do nosso conhecimento científico em que todos concordam. Apenas para fins de ilustração, segundo o consenso do IPCC, os mares podem subir até quase 1 metro. contudo, estudos mais recentes já apontam para algo como 3 a 4 metros. Porém, como esses estudos ainda não são amplamente aceitos, ficam de fora do relatório do IPCC. Aceitamos discutir, mas cientificamente, publicando artigos científicos em revistas científicas.

3 .  “A preocupação exacerbada com o clima e o meio ambiente, coisas cujo funcionamento se conhece pouco e mal, já resultaria em problemas imediatos, pois, para a parcela miserável da humanidade, dificulta cada vez mais a superação de seu estado.”

Nós acreditamos justamente no contrário: a pouca preocupação com o clima e meio-ambiente dificulta cada vez mais a superação do estado de miséria de muitos povos. Secas, enchentes, alterações climáticas de temperatura, tudo isso deve ter um impacto muito mais negativo em localidades sem infra-estrutura para lidar com esses problemas.

4. “Nada (…) desviará a atenção de milhares ou milhões de militantes que, como os adeptos de qualquer seita, são movidos por dois desejos prazerosos, a saber, o de policiar a vida alheia e o de punir o sucesso de sociedades inteiras que não comungam de sua fé apocalíptica”.

Somo militantes, mas não fazemos partes de seita alguma. o Mesmo Nelson Ascher que reclama de que os ecologistas “demonizam quem quer que levante a menor objeção” faz o mesmo e diz que fazemos parte de seita.

Quanto ao fato de que queremos policiar a vida alheia, não somo nós que apoiamos o estado policial de Bush no combate ao terrorismo nem propormos câmeras nas ruas para evitar comportamentos de qualquer tipo dos cidadãos.

Se temos sociedades de sucesso no nosso mundo, então realmente o significa de sucesso difere muito. Pois enquanto houver seres humanos como nós passando fome, vítimas de abusos e mal-tratos, morrendo em guerras (civis ou entre estados), assassinatos aos montes e coisas afins, não conseguimos considerar tais sociedades um sucesso.  É verdade que muitos lugares conseguiram feitos extraordinários e que devem ser louvados e, desejamos, repartidos com todo o mundo. Mas a confinaça cega numa noção de progresso baseada na predação da Terra não pode e não será aceita por nós como signo do sucesso.

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