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Mercedes-Benz

12/06/2009
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Eu cresci ouvindo amúsica acima, cantanda a capella por Janis Joplin. Ouço-a agora enquanto redijo esse post.

Talvez a ironia dessa música me tenha feito sempre desconfiar dos carros como símbolos de status, símbolos fálicos do poder social masculino.

Cresci numa família na qual mover-se sobre duas rodas é um costume,  e sendo filho, neto e bisneto de ciclistas/motociclistas, não vejo a hora de ensinar a quinta geração (minha linda sobrinha) a pedalar como se deve, dominando a arte do contra-esterço tão necessária para o pedal urbano.

Carros são sim símbolos fálicos. O poder masculino mostra-se socialmente. Enquanto a sedução feminina concentra-se em seus corpos – e isso é o que explica o fascínio feminino pelos adornos – o poder masculino é social. A vaidade masculina extrapola os corpos, chega aos objetos de posse, de ostentação. Isso explica o fascínio masculino por veículos de toda a espécie. Inclusive bicicletas.

Temos na net zilhões de páginas, blogs, fóruns e etc., voltados a veículos de toda espécie. Se procurarmos bem, achamos muitas págians sobre monocilos, por exemplo, que não são exatamente os veículos mais populares, de uso mais disseminado….

Mas nenhum veículo conseguiu dominar a economia e o imaginário coletivo como o carro. Motocicletas também são produzidas aos milhões, mas não costumam despertar o mesmo fetiche generalizado que o carro desperta. Muita gente anda de moto apenas por necessidade (como vemos as mulheres dirigindo suas motos de pequenas cilindrada nas cidades do interior do Brasil, com seus capacetes cor-de-rosa), mas sonhando em trocar a moto por um carro (como as mulheres citadas antes, que assim que podem largam a motocicleta e usam um carro, onde não é necessário o capacete que lhes amassa os cabelos).

Já o carro é o grande fetiche. Tem legiões de cultuadores, que vão daqueles que respiram carros: não vivem sem um carro, não sabem de casa para ir à esquina se não for num carro, àqueles que lambem seus carros, às vezes sequer usando-os muito para não gastá-los: assim o fazem os colecionadores, que se ogulham de apenas usá-los em demonstrações.

Agora, como pode um objeto despertar tamanho sentimentos? Há pessoas que gastam todas suas economias e créditos, endividam-se, apenas para comprar um veículo e desfilar por aí. Outros gastam milhares de horas caçando, garimpando peças e acessórios para seus carros, para torná-los “únicos”, uma vez que é preciso individualizar algo que foi produzido em série, aos milhares, milhões…

Não é, portanto, descabida a letra da música cantada por Janis Joplin. Objeto de culto, o carro pode bem ser objeto de pedidos à divindade. Se nos parece estranha a música, lembremos quantos não estão, à essa hora, fazendo suas orações pedindo sucesso e imaginando a graça recebida sob a forma de um caro carro.

Oh, Lord, won´t buy me a Mercedes Benz…

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