Balanço (pessoal) do Fórum Social Mundial – Belém (PA)

Marcha de abertura do Fórum Social Mundial
por Carolina Kors Tiberio
O nosso Coletivo Ecologia Urbana fez duas oficinas: “Petrobras Assassina” e ” Cidades Verdes”, e apoiou uma terceira: “Nowtopia”, do ciclo-ativista norte-americano Chris Carlsson.
Todos se esforçaram pra que tudo desse certo, expuseram com clareza, concisão e qualidade os respectivos assuntos. E deu certíssimo. A platéia, em grande quantidade, envolveu-se na discussão.
Na “Petrobras Assassina” a polêmica, para terem idéia, durou praticamente o mesmo tempo da palestra, o ânimo dos sindicalistas ficou exaltado, sentiram-se atingidos diretamente pelas criticas à Petrobras (utilização de marketing para transmitir a falsa idéia de empresa sustentável, não distribuição – significativamente proporcional – dos lucros para projetos sociais e culturais, transferência de boa parte do seu lucro aos acionistas, e por fim, investimentos irrisórios em desenvolvimento de novas fontes de energia renováveis). Quase saiu sangue dos nossos companheiros da mesa, porém eles rebateram as críticas com firmeza, baseando-se, também, em dados do balanço social da empresa.
Na oficina “Cidades Verdes” o pessoal da platéia, um povo mais tranqüilo, e grande parte ambientalistas, participou questionando, principalmente, o eco turismo, os produtos de fabricação de casas sustentáveis, a bioarquitetura.
Quanto à oficina “Nowtopia”, essa foi a mais festiva de todas. Quase todo o pessoal da bicicletada presente no Fórum (de muitas cidades brasileiras e estrangeiras) esteve lá (temos um vídeo gravado, depois vocês verão). Em seu livro, Nowtopia, Chris adota um discurso, a meu ver, incentivador de um novo modelo de vida baseado no coletivismo e na vivência do momento presente. Ele divide nossa estrutura de vida em dois segmentos: a parte social (todas as nossas relações sociais) e a técnica (o trabalho).
Sabemos que a parte técnica não costuma ser criativa, em geral mecânica, chata, baseada na venda de nossas horas, e, justamente em contraponto a esta parte chata que o ativista constrói um novo modelo de vida. Em seu livro- manifesto, a importância da parte técnica desloca-se para a social, Chris Carlsson afirma que em seu modelo de sociedade, por necessitar de menos acumulação de riquezas, trabalha-se menos, disponibilizando mais tempo livre para desfrutar a potencialidade da vida. O público, principalmente a rua, torna-se o espaço desta convivência, criando maior contatos entre as pessoas, conseqüentemente surgindo uma sociedade humanitária e criativa, no sentido amplo de atuação pessoal no espaço e no momento presente vivido.
Após a palestra, um pouco de tudo exposto pelo ativista se materializou: saímos, com espírito coletivo, na maior chuva, de bike, pela Belém, todos cantando, conversando e gritando “menos carro, mais bicicleta” ou “menos gasolina, mais adrenalina”. Óbvio, o encontro terminou no bar!
Quanto ao Fórum em si, este foi o meu primeiro. A minha “virgem impressão” é de espanto de maravilhamento. Sim, estou maravilhada, e talvez um pouco deslumbrada. Como é possível reunir tantas pessoas do mundo em um só local? Pode existir maior quantidade de pessoas preocupadas com o modelo sócio-político-econômico do que eu imaginava?
Em cada simples puxada de papo sempre surgiam debates em torno de um assunto polêmico (Palestina, pobreza de Belém, aquecimento global, segurança dos trabalhadores, educação pública, falta de politização dos hippies, falta de reciclagem, aquecimento global etc), o espírito de interesse pela troca de informação era nítido entre as pessoas.
Em relação à programação, havia de tudo, porém o grande foco estava nos temas ambientais, principalmente Amazônia e mudanças climáticas. Praticamente todas as palestras que vi tinham profundidade de conteúdo e platéia politizada geradora de debates e momentos incríveis, cito alguns: Marina Silva e sua paixão pela Amazônia, Leonardo Boff com seu discurso antropocêntrico, Índios cobrando do Ministro Tarso Genro ações de agilidade na lenta demarcação de terras indígenas, secretários do meio ambiente elucidando pontos sobre agendas 21 locais, a população de Belém aprendendo sobre mananciais e discutindo sobre a qualidade de suas águas (na oficina do nosso parceiro Cesar Perogaro), mulheres de Moçambique em luta pela igualdade social, palestinos solicitando apoio da população brasileira.
A impressão que me fica é que durante o fórum acontece um processo de união e fortificação dos movimentos criando subsídios para futuras ações de articulação global a fim de enfrentar os atuais paradigmas em prol de um novo modelo de civilização (baseada em trocas justas, valorização humana, sustentabilidade na exploração da natureza, alteração da matriz energética petróleo para recursos renováveis – sol, água, ar-, transparência na comunicação, livre circulação de pessoas, igualdade etc).
Último ponto, também importante, foi o esclarecimento gerado pelo contato com uma pequena parte do norte do país. Falamos tanto de Amazônia, e eu pouco conhecia sobre a região e seus moradores. De lá, cidade grande, não se pode ver o Bioma Amazônico, porém a sua proximidade é nítida. Tive a oportunidade de conhecer, fora do ambiente do fórum, muitos batalhadores trabalhando para melhorar a qualidade do bioma através de projetos com comunidades indígenas, reforma agrária e rádios comunitárias. Eles trabalham no centro da floresta e eventualmente moram em Belém.
O belemense, em geral, é muito espontâneo, feliz, solícito, todos querem ajudar. São um pouco bairristas, mas conforme se aprofunda a conversa, percebe-se a sua consciência dos problemas locais, comentam, principalmente, sobre a violência e corrupção. No entanto, possuem tímida articulação em busca de mudanças. Espero que o fórum, assim como me atingiu positivamente, também possa dar aos moradores força incentivadora pra lutar por mudanças na estratégica região sede do fórum!
Agora alguns destaques:
• 08 março – Dia dos Direitos da Mulher.
• 14-22 março – Mobilização e Fórum paralelo ao Fórum Mundial da Água Istambul.
• 28 março – começa em Londres, a semana de ação – nível do G20
• 30 março – Mobilização contra a guerra e a crise.
• 30 março – Dia da Solidariedade com o povo palestino, chamado ao desinvestimento e boicote aos produtos israelitas.
• 04 abril – Dia de Ação no 60 º aniversário da NATO (OTAN).
• 17 abril – Dia Internacional para a Soberania Alimentar.
01 maio – Dia Internacional dos trabalhadores • Julho – Dias de Ação do G8 na Itália
• 12 outubro – Dia Mundial de Ação para a Proteção da Mãe Terra, contra a mercantilização da vida.
• 14 e 21 de outubro – mobilização mundial em favor do cancelamento da dívida dos países menos desenvolvidos.
• 12 dezembro – Dia de Ação Global sobre a Justiça climática em conferência de Copenhague sobre o clima.
Números do Fórum:
Foram registradas 135 mil participantes do fórum, 15 mil no acampamento da juventude, 3 mil crianças – totalizando cerca de 150 mil participantes.
5808 associações envolvidas – 489 da África, 119 da América Central, 155 da América do Norte, 4.193 da América do Sul, 334 da Ásia, 491 da Europa, 27 da Oceania – pomovendo 2310 atividades autogestionadas.
4.830 voluntários, tradutores, técnicos e gestores.
5.200 expositores em lojas, e restaurantes
200 eventos culturais
Apenas para oferecer o ponto de vista de alguém de Belém:
Creio que todos sabem quais as necessidades de sua cidade – isso em qualquer lugar do país ou do mundo – mas o que realmente falta em minha região é essa articulação que falaste, essa iniciativa de clamar por respostas do poder publico. Normalmente quando ocorre essa iniciativa, está ligada a partidarismo politico, o que reflete a utilização do povo como massa de manobra. Acho que o povo não crê no força que pode ter quando está organizado, ou simplesmente está muito cansado tentando sobreviver.
Mas tenho que concordar contigo neste ponto: que realmente ainda falta avançarmos nesta articulação que mencionaste, mas não creio estarmos tão em desvantagem em relação ao do sul/sudeste.