Muito mais além…

27 03 2008

A solução para o trânsito de São Paulo vai muito além das medidas propostas acerca de uma semana pela Prefeitura da cidade. As medidas não propõem, muito menos provocam, alterações de impacto no frenético trânsito paulistano. São ações pontuais que visam, segundo o secretário de transportes do município Alexandre de Moraes, aumentar a fluidez do trânsito.

Está claro que o principal problema é o número excessivo de carros nas ruas, sendo necessárias políticas e ações menos tímidas que desestimulem o uso de carros na cidade. Inúmeras ações podem ser pensadas nesse sentido como a real expansão dos corredores de ônibus, a proibição da circulação de carros em determinadas áreas, a construção de ciclovias e bicicletários, permitindo o aumento da participação desse meio de transporte muito mais limpo e saudável, e até mesmo a elaboração de campanhas de transformação comportamental estimulando o motorista solitário a ser solidário.

Caso medidas mais radicais não forem pensadas continuaremos a conviver com os recordes de congestionamento e com imagens como a apresentada abaixo, que retrata uma situação que já se tornou “normal” no cruzamento entre as avenidas Brigadeiro Faria Lima e Presidente Juscelino Kubitschek.





Quem chega atrasado bebe água suja

27 03 2008

Trechos do texto de Eduardo Diniz Junqueira (fazendeiro e escritor)
O Estado de São Paulo - 26 de Março de 2008

Ditado caboclo, um tanto simplório, mas que bem se aplica ao nosso desenvolvimento tardio, é o que vai no título. Pois, com a história crítica, parece que nada resta de heróico ou de grandioso no nosso passado. Nem mesmo a grandeza territorial mantida por quatro séculos, que tanto admirava o historiador inglês Robert Southey, como obra tão grande e de tão pouca gente. E aqui cabe lembrar que a diferença entre nós e os Estados Unidos, país de clima temperado, é que somos um país tropical e nada da Europa se adaptava ao Brasil facilmente. Nem o europeu.

O avanço da pecuária para o oeste só se deu após a chegada do zebu, em 1900. Gado afeito ao calor e às epizootias tropicais, como a do carrapato, que obrigava os antigos a besuntar os bois de carro com azeite de mamona e a penteá-los, para limpar os carrapatos. O zebu abriu as invernadas do Brasil Central. Em 1950, no município de Morro Agudo (SP), por iniciativa de Sebastião de Almeida Prado, teve início o desmatamento mecânico do cerrado no Brasil, executado pelo Escritório de Técnica Agrícola (ETA), de Fernando Penteado Cardoso, João Lanari Duval e outros quatro agrônomos recém-formados na Esalq. Com a mecanização se expandiu o uso do calcário, o plantio do arroz de sequeiro, da soja e das braquiárias pelo Brasil Central. O calcário, a soja, as brachiárias e o buldôzer levaram a prosperidade às terras de campo e cerrado.

Porém chegamos tarde aos paralelos amazônicos e hoje somos criticados por isso. Segundo o ecologista Evaristo Eduardo Miranda, autor do livro Quando o Amazonas Corria para o Pacífico, na época do Descobrimento o Brasil detinha 10% das florestas do mundo e hoje detém cerca de 28% delas porque os outros países derrubaram as suas florestas há muito tempo e nós, não. Como participante do desbravamento dos sertões, ao longo de 60 anos, não defendo o desmatamento desordenado, mas guardo em mim o sentimento de esperança e de futuro que a abertura de novas áreas para a atividade econômica despertava nas pessoas. Os desbravadores do Oeste Paulista, do Norte do Paraná, de Mato Grosso, de Goiás, deste mundão de Brasil, em que as fazendas e as cidades pipocavam, provocavam a alegria e o entusiasmo de um País novo que se fazia. Sentimento sintetizado por Monteiro Lobato no Drama da Geada, publicado pelo Estado em 1918, quando evocou “o prazer paulista de tirar uma fazenda do nada”. Sem o desmatamento essas regiões não existiriam, nem o Brasil existiria com a grandeza que tem. Continuaria “um pequeno país com a responsabilidade de um grande território”, como disse Joaquim Nabuco.

Postado por João Paulo Amaral